9.1 Fontes tardias para uma campanha rápida
Alexandre viveu entre 356 e 323 a.C., mas as narrativas completas preservadas são posteriores. Arriano, Plutarco, Diodoro, Quinto Cúrcio e Justino utilizaram tradições diferentes e organizaram o rei como exemplo militar, moral ou filosófico. Autores contemporâneos, como Calístenes, Ptolomeu e Aristóbulo, sobreviveram principalmente por meio de citações e reelaborações.
É possível reconstruir a sequência geral das campanhas, mas motivações íntimas e discursos detalhados são menos seguros. A documentação babilônica, inscrições, moedas e arqueologia ajudam a corrigir a narrativa centrada no acampamento macedônio.
9.2 Granico, Isso e o Mediterrâneo oriental
Em 334 a.C., Alexandre atravessou o Helesponto. A vitória no Granico abriu a Anatólia ocidental, embora cidades e fortalezas reagissem de modos diferentes. O conquistador dissolveu algumas tiranias e proclamou liberdade para cidades gregas, mas exigiu contribuições e instalou supervisão. A palavra "liberdade" era instrumento de hegemonia.
Em 333 a.C., Alexandre derrotou Dario III em Isso. Em vez de perseguir imediatamente o rei, avançou pela costa fenícia para reduzir o poder naval persa. Tiro resistiu a longo cerco; Gaza também foi tomada depois de resistência. A campanha mostra cálculo logístico e coerção. Comunidades que negociavam podiam preservar instituições; resistência podia resultar em punições severas e redistribuição de população.
9.3 Egito e a fundação de Alexandria
O Egito foi ocupado em 332 a.C. com oposição limitada das autoridades persas locais. Alexandre adotou elementos da realeza faraônica, realizou rituais e visitou o oráculo de Amon em Siuá. A fundação de Alexandria ligou o delta a uma nova cidade portuária voltada para o Mediterrâneo. Seu desenvolvimento maior ocorreria sob os Ptolomeus.
A imagem de libertador do Egito depende de fontes e memórias produzidas em contextos posteriores. O fim do domínio persa podia ser bem recebido por setores locais, mas a nova monarquia também cobraria recursos e instalaria uma elite militar estrangeira.
9.4 Gaugamela e a apropriação do centro aquemênida
Em 331 a.C., a vitória em Gaugamela abriu o caminho para Babilônia, Susa e Persépolis. Governadores e sacerdotes negociaram entradas; tesouros foram apropriados; cerimônias reconheceram o novo soberano. Alexandre preservou partes do sistema satrapal e nomeou tanto macedônios quanto iranianos.
O incêndio de edifícios em Persépolis foi interpretado como vingança simbólica, acidente de banquete ou decisão política. As fontes divergem e foram moldadas por julgamento moral. O fato seguro é que a destruição atingiu um centro dinástico enquanto a administração regional continuou em outras formas.
Dario fugiu para o leste e foi morto em 330 a.C. por homens ligados a Besso, sátrapa da Bactria, que assumiu título régio. Alexandre passou a apresentar-se não apenas como vingador grego, mas como sucessor legítimo da monarquia que conquistara.
9.5 Ásia Central: guerra e fundações
As campanhas em Bactria e Sogdiana, entre 329 e 327 a.C., enfrentaram resistência móvel, fortalezas e redes locais. Vitórias em grandes batalhas não garantiam controle de vales e oásis. Alexandre fundou ou reorganizou assentamentos, instalou veteranos, negociou com elites e casou-se com Roxana, filha de um nobre bactriano ou sogdiano.
A resistência de Espitâmenes e outros líderes demonstra que a conquista precisava ser refeita regionalmente. As fundações chamadas Alexandria não eram todas cidades inteiramente novas e seus tamanhos variavam. Algumas reutilizavam assentamentos e sistemas de irrigação anteriores.
9.6 Índia, Hidaspes e o limite da campanha
No noroeste do subcontinente, governantes locais escolheram alianças ou resistência. Alexandre derrotou o rei Poro no Hidaspes em 326 a.C. e o manteve como governante subordinado, ampliando seu território. A solução reconhecia capacidade local e evitava administrar diretamente cada região.
No rio Hífase, o exército recusou continuar para o leste. O episódio revela limites de fadiga, distância, clima, conhecimento e expectativa de recompensa. O retorno pelo Indo e pela Gedrósia provocou grandes perdas por condições ambientais e planejamento arriscado. A conquista não era marcha inevitável; dependia da disposição de pessoas e da sustentação logística.
9.7 Integração de elites e conflito macedônio
Alexandre incorporou nobres iranianos, preservou sátrapas, adotou elementos da indumentária de corte e promoveu casamentos entre oficiais macedônios e mulheres de famílias asiáticas em Susa. Jovens recrutados e treinados segundo práticas macedônias foram apresentados ao exército. Essas medidas ampliavam a base do reino, mas ameaçavam privilégios de companheiros que esperavam dominar os conquistados.
Conflitos sobre a prosternação, execuções de oficiais e o motim em Ópis mostram tensão dentro da coalizão. Falar em "fusão" completa de povos exagera um projeto incompleto e hierárquico. Alexandre experimentava formas de governar um império muito maior que a Macedônia, sem resolver sucessão e representação de interesses.
9.8 Babilônia e a morte sem sucessão definida
Alexandre retornou à Babilônia, planejou novas campanhas e reorganizações, mas morreu em 323 a.C., com cerca de 32 anos. Deixou um meio-irmão adulto com limitações políticas, Filipe III Arrideu, e um filho ainda não nascido, Alexandre IV. Não havia herdeiro capaz de comandar imediatamente exércitos e elites.
O império sobreviveu como linguagem de legitimidade, tesouro, satrapias e ambição. Como unidade política efetiva, entrou numa disputa entre generais, governadores, a família real e exércitos. A ausência de sucessão foi agravada pela escala pessoal da monarquia: nenhum conselho ou regra aceita podia substituir o conquistador.
Continuidade decisiva: Alexandre derrubou a dinastia aquemênida, mas governou por muitas de suas satrapias, capitais, rotas, tesouros e elites. Sua conquista foi ruptura dinástica e apropriação institucional ao mesmo tempo.
Leituras-base do capítulo: Bosworth, Conquest and Empire; Heckel, In the Path of Conquest; Anson, Alexander the Great.