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Biblioteca CENC

Biblioteca digital de história e pensamento

14. O longo século II: apogeus, limites e epidemias

O século II é frequentemente apresentado como apogeu romano. Sob Trajano, Adriano e os Antoninos, o império manteve grande extensão, urbanização e moeda abundante em muitas regiões. Han Oriental possuía instituições duráveis, mas enfrentava facções e pressões crescentes. A Pártia continuava grande potência apesar de invasões. O Império Cuchana alcançava sua maior projeção sob Canisca…

14.1 Quatro apogeus que não coincidem perfeitamente

O século II é frequentemente apresentado como apogeu romano. Sob Trajano, Adriano e os Antoninos, o império manteve grande extensão, urbanização e moeda abundante em muitas regiões. Han Oriental possuía instituições duráveis, mas enfrentava facções e pressões crescentes. A Pártia continuava grande potência apesar de invasões. O Império Cuchana alcançava sua maior projeção sob Canisca e sucessores.

“Apogeu” depende do indicador. Extensão territorial, receita, paz interna, produção artística e capacidade militar atingem máximos em momentos diferentes. Uma corte pode celebrar prosperidade enquanto comunidades enfrentam imposto, epidemia ou guerra.

14.2 Roma entre expansão e consolidação

Trajano conquistou a Dácia, criando província rica em recursos e assentamentos, e realizou a breve invasão parta. Adriano abandonou parte das conquistas orientais, percorreu províncias e investiu em fronteiras. Antonino Pio governou com poucas campanhas pessoais, enquanto administrações e cidades continuaram operando.

O reinado de Marco Aurélio enfrentou guerra parta, epidemia e longos conflitos no Danúbio. A imagem filosófica do imperador não deve separar pensamento e comando militar. Cômodo herdou pressões e negociou o fim de campanhas; seu assassinato em 192 abriu guerra civil.

14.3 Pártia sob pressão, não paralisada

Guerras sucessórias facilitaram intervenções romanas, mas reis arsácidas reconstruíram poder após retiradas. Vologases I havia alcançado acordo duradouro sobre a Armênia; governantes posteriores operaram entre casas nobres, reinos e fronteiras.

As repetidas tomadas de Ctesifonte são sinais de vulnerabilidade, porém não provam que todo o império caiu em cada ocasião. Exércitos romanos percorriam corredores, saqueavam centros e recuavam; poderes arsácidas sobreviviam no planalto e reorganizavam alianças.

14.4 Han Oriental e a crise da corte

Depois das campanhas de Ban Chao, a presença Han nas Regiões Ocidentais oscilou. Na corte, famílias de imperatrizes e servidores palacianos competiam durante sucessões. Funcionários e estudantes criaram reputações e redes de crítica, atingidas pelas proscrições partidárias.

Esses conflitos não impediram toda administração, produção ou cultura. Papel, escrita, astronomia, historiografia e práticas funerárias continuaram a desenvolver-se. A crise política foi processo desigual, não um século inteiro de colapso.

14.5 Cuchanas e redes budistas

Sob Canisca, Huvisca e Vasudeva, moedas e inscrições documentam continuidade dinástica por muitas décadas. Santuários e doações mostram redes entre Bactriana e Índia. A era cuchana oferece uma estrutura cronológica, mas governantes regionais e sátrapas podiam operar com autonomia.

O florescimento artístico de Gandara e Mathura não deve ser explicado apenas por uma “paz cuchana”. Patronos diversos, tradições anteriores, oficinas e circulação religiosa foram fundamentais. Império criava condições e recursos, mas não era autor único da cultura.

14.6 A Peste Antonina

A epidemia tornou-se visível no Império Romano a partir da década de 160. Galeno observou sintomas, e autores posteriores associaram a doença ao retorno da guerra oriental. Identificá-la como varíola é hipótese forte, não diagnóstico laboratorial definitivo. Estimativas de mortalidade variam muito.

Os efeitos também variaram. Exército, cidades e campo perderam pessoas; recrutamento, arrecadação e preços podem ter sido afetados. Não é seguro atribuir automaticamente a epidemia o fim da prosperidade romana. Guerra, política fiscal, ambiente e estruturas regionais precisam ser combinados.

14.7 Clima e causalidade

Dados de gelo, sedimentos, árvores e cavernas ampliaram o estudo do clima antigo. Eles identificam tendências regionais, mas conectá-las a eventos políticos requer datas e mecanismos. “O clima derrubou o império” é explicação excessivamente simples.

Uma seca pode reduzir colheita; seus efeitos dependem de armazenamento, distribuição, desigualdade, mobilidade e guerra. O mesmo choque produz resultados diferentes em instituições diferentes. A comparação deve estudar vulnerabilidade, não determinismo.

14.8 Um sistema conectado?

No século II, os quatro impérios coexistiam e mercadorias cruzavam seus espaços. Isso permite falar em sistema afro-eurasiático em formação, desde que “sistema” não sugira integração uniforme. Os contatos eram densos em alguns corredores e muito fracos em outros. Decisões tomadas em Ctesifonte podiam afetar preços e segurança na Síria; decisões em Luoyang podiam alterar reinos do Tarim; não há evidência de coordenação continental.

Síntese: O século II não foi uma idade dourada única nem uma crise mundial única. Foi um período em que grandes impérios alcançaram capacidade elevada, mas também aumentaram despesas, dependências e exposição a guerras, sucessões e epidemias.

Leituras-base do capítulo: Potter, The Roman Empire at Bay; Scheidel, ed., Rome and China; de Crespigny, Fire over Luoyang; Falk, Kushan Histories.