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Biblioteca CENC

Biblioteca digital de história e pensamento

15. O século III e a transformação da ordem imperial

Por volta de 300, nenhum dos quatro impérios existia exatamente como no século II. Roma sobrevivia sob uma monarquia reorganizada por Diocleciano; a dinastia arsácida fora substituída pelos sassânidas; Han dera lugar aos Três Reinos e depois a nova unificação parcial; o poder cuchana fragmentara-se e enfrentava expansão sassânida e dinastias regionais. A simultaneidade é…

15.1 Quatro mudanças de forma

Por volta de 300, nenhum dos quatro impérios existia exatamente como no século II. Roma sobrevivia sob uma monarquia reorganizada por Diocleciano; a dinastia arsácida fora substituída pelos sassânidas; Han dera lugar aos Três Reinos e depois a nova unificação parcial; o poder cuchana fragmentara-se e enfrentava expansão sassânida e dinastias regionais.

A simultaneidade é impressionante, mas não prova causa comum. Cada transformação possuía cronologia, geografia e mecanismos próprios. Conexões podem ter transmitido pressões; estruturas políticas determinaram respostas.

15.2 Roma depois dos Severos

Septímio Severo venceu a guerra civil de 193-197, premiou exércitos e fortaleceu sua dinastia. Sua origem africana e redes orientais lembram que o centro imperial já era profundamente provincial. Caracala ampliou a cidadania em 212 e conduziu campanhas; depois de 235, sucessões rápidas, guerras civis e pressões fronteiriças fragmentaram comando.

O rótulo “Crise do Terceiro Século” cobre fases diferentes. Imperadores eram proclamados por exércitos; godos e outros grupos atravessaram fronteiras; sassânidas capturaram o imperador Valeriano em 260; regiões gaulesas e o reino de Palmira operaram separadamente por períodos. Moeda perdeu teor metálico e preços sofreram mudanças, mas os padrões regionais foram desiguais.

O império não ficou sem governo. Cidades, exércitos, oficinas e províncias continuaram. Galiano, Aureliano, Probo e outros restauraram partes da coordenação. Diocleciano, a partir de 284, ampliou divisão de comando, fiscalidade e cerimônia, criando a Tetrarquia. A resposta alterou o Principado e preparou a ordem tardo-antiga.

15.3 A ascensão sassânida

Ardashir, dinasta de Pérsis, derrotou Artabano IV em 224 e incorporou outros territórios. Seu filho Sapor I enfrentou vários imperadores romanos, capturou Valeriano e registrou campanhas em inscrição trilíngue na Ka'ba-ye Zardosht. Relevos e textos apresentavam uma nova casa como restauradora da realeza iraniana.

A centralização sassânida não deve ser exagerada por contraste com a Pártia. Grandes casas, reis regionais e cidades continuaram. A nova dinastia reorganizou títulos, patronato religioso e exército e construiu uma memória que diminuía os arsácidas.

Partes do antigo espaço cuchana foram governadas por autoridades chamadas cuchano-sassânidas, que emitiram moedas combinando repertórios. A expansão iraniana reconfigurou Bactriana e Afeganistão sem eliminar imediatamente tradições cuchanas.

15.4 Do fim Han aos Três Reinos

Em 220, Cao Pi recebeu a abdicação do último imperador Han e fundou Wei. Liu Bei proclamou uma continuidade Han em Shu; Sun Quan consolidou Wu. Cada Estado mobilizou burocracia, generais, colonização, famílias e legitimidade. A divisão não foi simples retorno ao caos local.

Wei conquistou Shu em 263. A família Sima substituiu Wei pela dinastia Jin em 266 e conquistou Wu em 280, reunificando grande parte do território. A unificação seria breve, mas mostra que o ideal e muitas ferramentas imperiais sobreviveram à dinastia Han.

Migração para o sul, desenvolvimento do vale do Yangzi e novas relações com povos fronteiriços mudaram a geografia. A história chinesa do século III é tanto transformação territorial quanto sucessão de batalhas.

15.5 Fragmentação cuchana

Depois de Vasudeva I, reis posteriores aparecem em moedas e inscrições, mas a unidade política diminuiu. Sassânidas controlaram áreas ocidentais; no norte da Índia, Nagas e outras dinastias ganharam espaço; poderes locais apropriaram-se de tipos monetários e títulos.

O termo “Pequenos Cuchanas” é usado em algumas classificações numismáticas, mas não resolve todas as genealogias. A moeda registra continuidade e competição. A fragmentação preparou um cenário no qual o Império Gupta emergiria no século IV, enquanto reinos e confederações centro-asiáticas continuariam a mudar.

15.6 Palmira e a recomposição romana

Palmira ganhou importância quando Odenato organizou defesa oriental contra os sassânidas. Após sua morte, Zenóbia e Vabalato controlaram Egito e grande parte do Oriente romano. O governo utilizou títulos e imagens que negociavam pertencimento romano e autonomia. Aureliano derrotou o regime palmireno em 272-273 e reintegrou os territórios.

Chamar Zenóbia apenas de rebelde ou rainha nacionalista impõe categorias posteriores. Palmira operou dentro da crise imperial e assumiu funções de proteção, arrecadação e comando. Sua expansão ameaçou o monopólio do imperador e foi reprimida.

15.7 Epidemia, clima e guerra no século III

A chamada Peste de Cipriano atingiu regiões romanas a partir de meados do século III; o agente permanece incerto. Guerras e deslocamentos ampliavam vulnerabilidade. Na China, epidemias e fomes aparecem em fontes, mas novamente faltam bases para uma pandemia única ligando todo o continente.

Mudanças climáticas regionais podem ter afetado pastagens, colheitas e migrações. A prudência exige demonstrar a cadeia: indicador ambiental, impacto produtivo, distribuição social e decisão política. Sem essa cadeia, clima vira explicação universal incapaz de explicar diferenças.

15.8 Por que alguns impérios sobreviveram como instituições?

Roma e a tradição imperial chinesa possuíam linguagens, cargos e territórios que rivais buscaram reunir. Pártia foi substituída por outra dinastia iraniana capaz de reivindicar soberania equivalente. Cuchana fragmentou-se entre vários polos sem reconstrução imediata do mesmo alcance.

Sobrevivência dependeu de mais que burocracia. Geografia fiscal, densidade urbana, memória de unidade, exércitos, casas aristocráticas e capacidade de incorporar vencedores contribuíram. Uma instituição pode sobreviver mudando radicalmente.

Por volta de 260RomaIrãChinaEspaço cuchana
Autoridadeimperadores rivais e regiões autônomasSapor I sassânidaWei, Shu e Wureis posteriores e poderes regionais
Pressãosucessão, fronteiras e moedaguerra romana e consolidaçãocompetição interestatalavanço sassânida e fragmentação
Continuidadeexército, províncias e ideal imperialcasas, cidades e realeza iranianaburocracia e mandatomoedas, cultos e redes
RecomposiçãoAureliano e Dioclecianodinastia sassânidaJin reunifica em 280sem reunificação equivalente imediata

Leituras-base do capítulo: Ando, Imperial Rome AD 193 to 284; Potter, The Roman Empire at Bay; de Crespigny, The Three Kingdoms and Western Jin: A History of China in the Third Century AD; Shayegan, Arsacids and Sasanians.