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Biblioteca CENC

Biblioteca digital de história e pensamento

2. O mundo por volta de 600: heranças e novas possibilidades

Por volta de 600, ninguém poderia prever a geografia política de 700. O Império Romano oriental ainda governava Egito, Síria, Palestina, Anatólia, partes dos Bálcãs, norte da África e posições na Itália. O Império Sassânida articulava Mesopotâmia, planalto iraniano e influências no Cáucaso, Golfo e Ásia Central. Sui acabara de reunificar a China; na Índia,…

2.1 Um mapa sem resultado predeterminado

Por volta de 600, ninguém poderia prever a geografia política de 700. O Império Romano oriental ainda governava Egito, Síria, Palestina, Anatólia, partes dos Bálcãs, norte da África e posições na Itália. O Império Sassânida articulava Mesopotâmia, planalto iraniano e influências no Cáucaso, Golfo e Ásia Central. Sui acabara de reunificar a China; na Índia, poderes regionais disputavam a herança pós-Gupta; no Mediterrâneo ocidental, visigodos, francos e lombardos consolidavam reinos.

O século VII não começou com um "vazio". Começou com estados capazes de arrecadar e guerrear, mas submetidos a tensões de sucessão, fronteiras extensas, epidemias recorrentes e competição por elites locais. Novos poderes cresceram ao aproveitar estruturas existentes e ao oferecer outras formas de lealdade.

2.2 Roma e Irã antes da guerra final

Romanos e sassânidas eram rivais de longa duração e também parceiros diplomáticos. Reconheciam títulos, negociavam tréguas, disputavam Armênia e Cáucaso e financiavam aliados árabes. Suas guerras mobilizavam impostos e deslocavam populações, mas não tornavam inevitável a destruição de um dos lados. A guerra iniciada em 602 foi excepcional por duração e profundidade: forças sassânidas ocuparam Síria, Palestina e Egito; a contraofensiva de Heráclio atingiu o coração iraniano; e a ordem sassânida entrou em crise sucessória após 628.

A exaustão explica parte das conquistas árabes posteriores, não tudo. Governos locais, comunidades religiosas, capacidade militar dos conquistadores, alianças e escolhas fiscais também importaram. "Dois impérios cansados" é ponto de partida, não explicação completa.

2.3 Arábia e mar Vermelho

A península Arábica conectava Mediterrâneo, Mesopotâmia, Golfo, mar Vermelho e oceano Índico. Havia pastoreio móvel, oásis agrícolas, mercados, santuários, comunidades judaicas e cristãs e relações com Roma, Irã e Axum. Meca e Medina integravam redes regionais cuja escala exata continua debatida. A pregação de Muhammad, a formação de uma comunidade em Medina e a unificação política de grande parte da península alteraram esse ambiente sem surgir fora da história afro-eurasiática.

O termo "tribo" não deve sugerir grupos simples ou imutáveis. Genealogias eram instrumentos políticos; alianças podiam ser refeitas; chefias negociavam recursos, proteção e prestígio.

2.4 Sui, estepes e península Coreana

Sui reuniu a China em 589, reformou instituições e ampliou canais, mas campanhas dispendiosas contra Goguryeo e conflitos internos contribuíram para sua queda. Tang, fundado em 618, herdou administração, capitais e problemas fronteiriços. Ao norte, poderes turcos não eram apenas ameaça externa: forneciam cavalos, aliados, rivais dinásticos e modelos de soberania. Famílias da fronteira combinavam repertórios chineses e centro-asiáticos.

Na península Coreana, Goguryeo, Baekje e Silla mantinham estados organizados, diplomacia e cultura escrita. A relação com Sui e Tang foi guerra, aliança e negociação; não simples submissão.

2.5 Índia e Sudeste Asiático

Na Índia, Chalukyas, Pallavas, Vardhanas e outros poderes disputavam rotas, planícies e centros sagrados. Reis patrocinavam brâmanes, mosteiros e templos, concediam direitos sobre terras e buscavam títulos universais sem controlar continuamente todo o subcontinente. No Sudeste Asiático, portos e centros agrários articulavam comércio, parentesco e cultos. Inscrições em sânscrito conviviam com línguas locais; sua adoção expressava uma linguagem cosmopolita, não colonização política indiana.

O estreito de Malaca, o mar de Java e o delta do Mekong já conectavam comerciantes, peregrinos e cortes. Srivijaya emergiria dessas redes no século VII.

2.6 África: Nilo, Sahel e planaltos

Egito permanecia parte do Império Romano oriental, enquanto Nobátia, Makúria e Alódia formavam reinos cristãos na Núbia. Axum ainda controlava um reino no planalto do Chifre da África, embora mudanças no mar Vermelho alterassem suas conexões. No Sahel, comunidades agrícolas, centros de ferro, redes de caravanas e chefias preparavam formações como Wagadu, conhecido nas fontes árabes como Gana. A cronologia inicial desses poderes é frequentemente aproximada.

RegiãoPoderes em c. 600Base de recursosConexõesIncerteza principal
Mediterrâneo e IrãRoma oriental, Sassânidas, visigodos, francos, lombardosAgricultura tributável, cidades, moeda, exércitosMediterrâneo, Cáucaso, mar VermelhoPeso de guerra, clima e peste nas mudanças
Leste AsiáticoSui, estados coreanos, turcos orientais e ocidentaisGrãos, trabalho fiscal, cavalos, rotasChina, estepes, Coreia, oásisAlcance real do controle fronteiriço
Sul e Sudeste AsiáticoChalukyas, Pallavas, Vardhanas, centros portuáriosTerra, tributos, templos, comércio marítimoGolfo, baía de Bengala, estreitosCronologias dinásticas e extensão territorial
ÁfricaReinos núbios, Axum, comunidades sahelianasNilo, agricultura, gado, ouro, marfim, rotasMediterrâneo, mar Vermelho, SaaraDatação de formações políticas pouco textuais

Leituras-base do capítulo: James Howard-Johnston, The Last Great War of Antiquity; Peter Sarris, Empires of Faith; Hugh Kennedy, The Great Arab Conquests; Mark Edward Lewis, China's Cosmopolitan Empire; UNESCO, General History of Africa, volume III.