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5. Amoritas, Babilônia e a Assíria mercantil

O início do segundo milênio a.C. foi marcado por reinos concorrentes. Isin e Larsa disputaram o sul; Eshnunna controlou rotas no Diyala; Mari ocupou posição estratégica no médio Eufrates; Assur ligou a Mesopotâmia à Anatólia; Babilônia começou como um centro relativamente modesto. Dinastias frequentemente identificadas como amoritas governavam muitas dessas cidades, mas adotaram línguas, cultos…

5.1 Depois de Ur III: um mosaico político

O início do segundo milênio a.C. foi marcado por reinos concorrentes. Isin e Larsa disputaram o sul; Eshnunna controlou rotas no Diyala; Mari ocupou posição estratégica no médio Eufrates; Assur ligou a Mesopotâmia à Anatólia; Babilônia começou como um centro relativamente modesto. Dinastias frequentemente identificadas como amoritas governavam muitas dessas cidades, mas adotaram línguas, cultos e instituições mesopotâmicas.

“Amorita” não designava uma população uniforme que simplesmente substituiu a anterior. O termo aparece em contextos linguísticos, geográficos e políticos variados. Famílias de origem ou identidade amorita integraram-se às cidades e construíram novas casas dinásticas. A oposição entre nômade invasor e sociedade urbana sedentária simplifica uma interação que envolvia pastoreio, serviço militar, comércio e parentesco.

5.2 A rede comercial da Antiga Assíria

Nos séculos XX e XIX a.C., mercadores de Assur mantiveram colônias comerciais na Anatólia, sobretudo em Kanesh, atual Kültepe. Milhares de tabuinhas registram sociedades, empréstimos, caravanas, litígios, impostos e correspondência familiar. Estanho e tecidos seguiam para a Anatólia; prata retornava. O sistema operava por casas mercantis e instituições cívicas, não por conquista territorial assíria.

Kanesh permite observar famílias separadas por longas distâncias. Mulheres em Assur produziam tecidos, administravam propriedades e trocavam cartas com parentes no exterior. Mercadores calculavam risco, crédito e transporte, enquanto negociavam com autoridades anatólias. A rede mostra que influência e conectividade não exigem império formal.

5.3 Shamshi-Adad e o reino da Alta Mesopotâmia

Shamshi-Adad I construiu no início do século XVIII a.C. um grande reino no norte, apropriando-se de Assur e instalando filhos em centros estratégicos. Correspondências revelam suas instruções, críticas e preocupações com disciplina, alianças e abastecimento. O domínio dependia fortemente da casa dinástica e de uma rede pessoal de governadores.

Após sua morte, a construção perdeu coesão. O episódio ilustra o problema da sucessão em impérios patrimoniais: quando comunicação, autoridade e confiança convergem na pessoa do soberano, a transição expõe rivalidades. Mari recuperou-se por algum tempo sob Zimri-Lim, mas logo enfrentou a expansão babilônica.

5.4 Mari como observatório diplomático

O palácio de Mari preservou cerca de vinte mil tabuinhas. Elas registram embaixadas, alianças, casamentos, profecias, movimentos de tropas, rebanhos e disputas locais. A documentação mostra um mundo no qual reis se chamavam de irmãos quando reconheciam status equivalente e disputavam precedência por presentes e casamentos.

Informação era um recurso estratégico. Governantes precisavam saber quem se reunia, quais cidades vacilavam e onde havia alimento para uma força em marcha. Mensageiros e agentes produziam relatórios, mas rumores e atraso podiam distorcer decisões. A política internacional era tanto um problema de conhecimento quanto de força.

5.5 Hammurabi: de rei local a hegemon

Hammurabi reinou em Babilônia aproximadamente entre 1792 e 1750 a.C., pela cronologia média. Durante boa parte do reinado, não controlou toda a Mesopotâmia. Navegou entre poderes maiores, formou alianças e escolheu momentos para atacar Larsa, Eshnunna e Mari. Sua expansão decisiva concentrou-se nos últimos anos.

Esse ritmo corrige a imagem de um conquistador irresistível desde o início. Hammurabi acumulou capacidade dentro de um sistema multipolar e aproveitou mudanças na coalizão. Ao derrotar antigos aliados, transformou uma cidade entre várias no centro de um grande reino, ainda que de curta duração em sua extensão máxima.

5.6 A chamada lei de Hammurabi

A estela conhecida como Código de Hammurabi reúne prólogo, cerca de 282 disposições e epílogo. O rei aparece diante do deus solar Shamash e se apresenta como promotor de justiça. Os casos tratam de propriedade, comércio, família, trabalho, lesões e responsabilidade profissional. Penalidades variam conforme status social e circunstância.

Chamá-la de código pode sugerir exclusividade e aplicação automática. Não possuímos evidência de que tribunais consultavam a estela como um código moderno. Decisões jurídicas continuaram baseadas em contratos, costumes, juramentos, testemunhas e autoridade judicial. A coleção era ao mesmo tempo monumento de realeza justa, exercício erudito e formulação de princípios.

Leitura responsável: A fórmula de retaliação física presente em algumas disposições não resume todo o direito babilônico. Muitas normas prescrevem compensação, restituição, prova ou responsabilidade. O documento deve ser lido como estrutura social e ideologia de justiça, não como catálogo isolado de punições.

5.7 Administração babilônica e realidades locais

Cartas de Hammurabi e de funcionários mostram supervisão de canais, tropas, terras, templos e litígios. O rei exigia relatórios e intervinha em casos específicos. Contudo, a capacidade de Babilônia dependia de autoridades urbanas e estruturas herdadas. Conquistar Larsa não significava substituir imediatamente todo o pessoal administrativo.

O domínio mais extenso não sobreviveu intacto a Samsu-iluna, filho de Hammurabi. Rebeliões no sul, perda de territórios e novas pressões reduziram o reino. A Primeira Dinastia da Babilônia continuou por cerca de um século e meio, mas a hegemonia de Hammurabi foi uma conjuntura, não estabilidade permanente.

5.8 A projeção posterior da Babilônia

Hammurabi tornou-se célebre, porém a Babilônia adquiriu parte decisiva de sua centralidade cultural depois dele. Sua divindade principal, Marduk, foi elevada em tradições teológicas; a língua babilônica tornou-se forma de prestígio do acádio; escolas copiaram textos. O poder simbólico de uma cidade pode crescer mesmo após a redução de seu território.

Em 1595 a.C., na cronologia média, o rei hitita Mursili I realizou uma incursão que encerrou a dinastia. Os hititas não ocuparam duradouramente a Babilônia. O evento abriu espaço para uma dinastia cassita, demonstrando que destruir um centro e governar sua região são operações diferentes.

FormaçãoBase de poderAlcanceTraço distintivo
Assur mercantilCasas comerciais e cidadeRede até a AnatóliaInfluência sem anexação territorial
Reino de Shamshi-AdadCasa dinástica e guarniçõesAlta MesopotâmiaForte dependência do fundador
Mari de Zimri-LimPalácio, alianças e médio EufratesRede regionalArquivo diplomático excepcional
Babilônia de HammurabiCidade, exército e coalizõesSul e centro mesopotâmicosExpansão tardia e ideologia de justiça

Leituras-base do capítulo: Dominique Charpin, Hammurabi of Babylon; Amanda H. Podany, Brotherhood of Kings; Marc Van De Mieroop, King Hammurabi of Babylon; Mogens Trolle Larsen, Ancient Kanesh; Jack M. Sasson, From the Mari Archives.