11.1 Quando começa o “neoassírio”?
Nesta coleção, o rótulo Neoassírio designa aproximadamente 911-609 a.C., embora a recuperação territorial que preparou essa fase tenha começado antes e a transformação em império tenha sido gradual. Ashur-dan II e Adad-nirari II retomaram território; Tukulti-Ninurta II consolidou rotas; Ashurnasirpal II e Shalmaneser III ampliaram campanhas e tributos. A divisão em períodos é moderna e serve à análise, não representa uma ruptura percebida igualmente por contemporâneos.
Reis assírios reivindicavam restaurar terras antigas. Essa memória ligava novas conquistas ao período médio-assírio e ao deus Assur. A expansão aparecia como correção de rebelião e desordem, mesmo quando alcançava áreas antes autônomas.
11.2 Ashurnasirpal II e Kalhu
Ashurnasirpal II transferiu a principal residência real para Kalhu, atual Nimrud, e construiu o Palácio Noroeste. A inauguração, descrita numa inscrição, reuniu milhares de convidados e demonstrou capacidade de abastecimento. O evento converteu comida, arquitetura e presença de delegações em teatro imperial.
Relevos palacianos mostravam campanhas, caça, rituais e seres protetores. Lamassus monumentais guardavam entradas. O visitante atravessava uma narrativa espacial: o rei, apoiado pelos deuses, dominava natureza e inimigos. Arte e arquitetura não decoravam o poder; ajudavam a produzi-lo.
11.3 Campanha anual e geografia da obrigação
O calendário assírio associava anos a altos funcionários, e a campanha militar regular tornou-se parte da monarquia. Nem toda campanha buscava anexação. Algumas cobravam tributo, puniam mudança de lealdade, protegiam rotas ou exibiam força. O rei podia aceitar submissão e governante local; após nova rebelião, transformar o reino em província.
Essa escalada economizava administradores quando a cooperação era suficiente e aumentava controle quando a confiança falhava. A política não era uma fórmula automática, mas um repertório.
11.4 Shalmaneser III e coalizões ocidentais
Shalmaneser III realizou campanhas repetidas para a Síria. Em Qarqar, em 853 a.C., enfrentou uma coalizão que incluía Damasco e o rei Acabe de Israel. A inscrição assíria reivindica vitória, mas o fato de novas campanhas serem necessárias e de a coalizão manter capacidade indica resultado sem submissão decisiva.
O Obelisco Negro representa governantes trazendo tributo, incluindo Jeú de Israel. A imagem oferece um raro encontro entre tradição bíblica e monumento assírio, mas deve ser datada e contextualizada: representa uma submissão política específica, não a história inteira do reino.
11.5 Crises internas do século VIII
Após Shalmaneser III, revoltas e competição entre altos oficiais limitaram a monarquia. Governadores poderosos construíram inscrições próprias. A Assíria não parou de existir, mas o equilíbrio entre rei, corte e províncias tornou-se instável.
Essa fase é importante porque impede narrativas de expansão contínua. O império possuía ciclos de concentração e dispersão. Reformas posteriores responderam a problemas concretos de delegação.
11.6 Tiglate-Pileser III e a intensificação imperial
Tiglate-Pileser III tomou o trono em 745 a.C. e reorganizou o império. Reduziu em muitos casos a escala de províncias, ampliou a participação de oficiais diretamente dependentes e realizou anexações no oeste. Incorporou a Babilônia e adotou também um nome régio babilônico.
Ele é frequentemente apresentado como autor de uma reforma completa, mas mudanças tiveram precedentes. Sua importância está na intensidade e combinação: campanha, provincialização, deportação, tributação e presença dinástica. O resultado forneceu base para a expansão sargônida.
11.7 Israel, Damasco e a costa
Reinos levantinos procuravam apoio egípcio, formavam coalizões e mudavam de lealdade. Tiglate-Pileser III derrotou Damasco e anexou regiões de Israel. Em 722/720 a.C., Samaria caiu durante a transição entre Shalmaneser V e Sargão II. Fontes atribuem ações de maneiras diferentes, e a cronologia da conquista e da reorganização deve ser tratada com cuidado.
Partes da população foram deportadas e outras permaneceram. A política assíria reorganizou a região em províncias e assentou grupos de diferentes origens. Narrativas de “tribos perdidas” pertencem à memória posterior e não substituem a evidência administrativa e arqueológica.
11.8 Sargão II e uma nova dinastia
Sargão II assumiu em contexto contestado e escolheu um nome que evocava Sargão de Akkad. Precisou confirmar autoridade por campanhas contra coalizões no oeste, Urartu e Babilônia. Construiu uma nova capital, Dur-Sharrukin, planejada como expressão de ordem imperial.
Sua morte em batalha, fora do território assírio, foi interpretada como sinal perturbador e a capital foi abandonada por Senaqueribe. A materialidade monumental dependia da legitimidade do patrono. Uma cidade recém-construída podia perder função política rapidamente.
11.9 Babilônia: prêmio e problema
A Babilônia tinha prestígio religioso que a Assíria não podia tratar como província comum sem consequências. Reis assírios buscaram governá-la diretamente, por reis clientes ou por dupla titulatura. Elites urbanas, casas caldeias e apoio elamita alimentaram rebeliões.
O problema era estrutural: a cidade possuía recursos e legitimidade suficientes para ser valiosa e rebelde. Concessões demonstravam respeito, mas podiam permitir recomposição; repressão podia controlar no curto prazo e destruir a imagem do rei legítimo.
| Fase | Política dominante | Exemplo | Limite observado |
|---|---|---|---|
| Reconquista | campanhas e tributo | Adad-nirari II | dependência de repetição militar |
| Expansão ocidental | submissão de reinos | Shalmaneser III | coalizões como Qarqar |
| Intensificação | anexação e províncias | Tiglate-Pileser III | maior custo administrativo |
| Dinastia sargônida | capitais e integração | Sargão II | contestação e múltiplas fronteiras |
Leituras-base do capítulo: Karen Radner, Ancient Assyria: A Very Short Introduction; Eckart Frahm, Assyria; Mario Liverani, The Ancient Near East; A. Kirk Grayson, Assyrian Rulers of the Early First Millennium BC; textos do projeto Assyrian Empire Builders.