13.1 Nabopolassar e a rebelião
Nabopolassar assumiu o controle da Babilônia em 626 a.C. em meio à crise assíria. Anos de guerra foram necessários para consolidar o sul e avançar. A aliança com os medos foi decisiva nas quedas de Assur e Nínive. Babilônios e medos compartilhavam um inimigo; isso não implica divisão formal e comprovada de todos os territórios assírios.
A nova dinastia apresentou-se como libertadora e restauradora da Babilônia. Ao mesmo tempo, herdou espaços, rotas e práticas do império derrotado. Sucessão imperial envolve ruptura política e apropriação institucional.
13.2 Nabucodonosor II e a Síria-Palestina
Nabucodonosor II derrotou forças egípcias em Carquemis em 605 a.C. e consolidou domínio sobre a Síria e o Levante. Reinos locais precisaram escolher entre submissão babilônica e esperança de apoio egípcio. Campanhas repetidas indicam que a hegemonia não era automática.
Jerusalém rebelou-se e foi tomada em 597 a.C.; parte da elite foi deportada. Nova rebelião levou à conquista de 587/586 a.C., destruição do templo e nova deportação. As fontes bíblicas, crônicas babilônicas e arqueologia iluminam aspectos distintos. Nem toda a população de Judá foi removida; comunidades permaneceram e outras se reorganizaram na Babilônia e em regiões vizinhas.
13.3 Deportação, diáspora e documentação
Textos cuneiformes documentam grupos identificados como judaítas na Babilônia, incluindo a comunidade de Al-Yahudu. Contratos mostram famílias, campos, impostos, crédito e nomes que preservam identidade. Esses documentos evitam dois extremos: imaginar assimilação imediata ou comunidade totalmente isolada.
O exílio tornou-se tema teológico central em tradições judaicas. Para o historiador, é simultaneamente política imperial, experiência social e memória religiosa. Cada dimensão exige fontes próprias.
13.4 Babilônia monumental
Nabucodonosor II reconstruiu muralhas, templos, vias e palácios. A Porta de Ishtar e a Via Processional articulavam cerâmica vitrificada, imagens animais e festivais. O complexo de Marduk e a torre Etemenanki dominavam a paisagem simbólica. A capital apresentava o rei como restaurador do centro cósmico.
As obras dependiam de tributos, trabalho, especialistas e produção regional. Textos de construção atribuem tudo ao rei, mas milhares de pessoas e instituições participaram. Monumentalidade é uma forma de concentrar e tornar visível trabalho coletivo sob um nome dinástico.
13.5 Os Jardins Suspensos
Os Jardins Suspensos pertencem à lista clássica das maravilhas, porém sua localização e existência na Babilônia de Nabucodonosor são debatidas. Fontes babilônicas conhecidas não os descrevem de modo inequívoco. Alguns estudiosos propuseram relação com jardins e obras hidráulicas de Nínive.
O caso é modelo de prudência. Uma tradição famosa não deve ser apresentada como fato seguro. É possível explicar evidências a favor, lacunas e hipóteses alternativas sem transformar incerteza em mistério sensacionalista.
13.6 Templos, cidades e economia
Grandes templos, como o Eanna de Uruk e o Ebabbar de Sippar, administravam terra, trabalho, rebanhos e cultos. Famílias privadas participavam de comércio, crédito e arrendamentos. Arquivos empresariais, como os Egibi, mostram operações amplas, mas não representam toda a população.
A economia neobabilônica era monetizada em prata para contabilidade e pagamentos, embora moedas cunhadas não fossem o único meio. Preços e contratos permitem estudar mudanças, sempre considerando que arquivos sobreviventes concentram-se em certas cidades e grupos.
13.7 Reis após Nabucodonosor
Depois de 562 a.C., Amel-Marduk, Neriglissar e Labashi-Marduk reinaram por períodos curtos. Golpes e mudanças dinásticas indicam instabilidade de corte. Nabonido tomou o trono em 556 a.C. e promoveu o deus lunar Sin, especialmente em Harran.
Nabonido permaneceu anos em Tayma, no norte da Arábia, enquanto o príncipe Belsazar administrava a Babilônia. As razões são discutidas: estratégia de rotas, culto, doença ou conflito político. A ausência interferia no festival do Ano-Novo, no qual a presença do rei tinha papel ritual.
13.8 Ciro II e a tomada da Babilônia
O Império Persa expandiu-se sob Ciro II, que derrotou os medos e a Lídia. Em 539 a.C., venceu Nabonido em Opis; Sippar caiu e tropas persas entraram na Babilônia. A Crônica de Nabonido e o Cilindro de Ciro apresentam perspectivas distintas. A entrada foi relativamente rápida, mas a narrativa de recepção pacífica e universal pertence à legitimação do conquistador.
Ciro apresentou-se como escolhido de Marduk, restaurador de cultos e rei legítimo da Babilônia. Em vez de impor uma ideologia inteiramente externa, apropriou-se da tradição local. O cilindro registra retorno de imagens divinas e populações a santuários, mas não é uma declaração moderna universal de direitos humanos.
Mito moderno: O Cilindro de Ciro é uma fonte fundamental de legitimação e política religiosa aquemênida. Chamá-lo de “primeira carta de direitos humanos” projeta uma categoria do século XX sobre uma inscrição régia babilônica e obscurece seu contexto.
13.9 Fim ou transição?
539 a.C. encerrou a independência da dinastia neobabilônica, não a civilização babilônica. Escribas continuaram a produzir cuneiforme; templos mantiveram atividades; elites adaptaram-se à nova administração. Reis aquemênidas usaram títulos babilônicos e governaram por instituições locais.
Para esta coleção, 539 é um marco adequado porque inicia uma nova escala imperial, tratada no volume seguinte. Historicamente, é uma transição de soberania com continuidades profundas.
Leituras-base do capítulo: Paul-Alain Beaulieu, A History of Babylon, 2200 BC-AD 75; Michael Jursa, Aspects of the Economic History of Babylonia in the First Millennium BC; Laurie E. Pearce e Cornelia Wunsch, Documents of Judean Exiles and West Semites in Babylonia; Amélie Kuhrt, The Persian Empire; Karen Radner, Nadine Moeller e D. T. Potts, orgs., The Oxford History of the Ancient Near East.