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Biblioteca CENC

Biblioteca digital de história e pensamento

14. Linha do tempo e impérios coexistentes

Uma cronologia linear pode fazer parecer que um império entregou o mundo ao seguinte. Na realidade, impérios coexistiram com outros impérios, reinos e redes. Akkad teve concorrentes e periferias; o Egito do Reino Novo compartilhou o sistema com Mitani, Hatti e Babilônia; a Assíria enfrentou Urartu, Egito, Elam e Babilônia; o Império Neobabilônico conviveu com…

14.1 Como ler a coexistência

Uma cronologia linear pode fazer parecer que um império entregou o mundo ao seguinte. Na realidade, impérios coexistiram com outros impérios, reinos e redes. Akkad teve concorrentes e periferias; o Egito do Reino Novo compartilhou o sistema com Mitani, Hatti e Babilônia; a Assíria enfrentou Urartu, Egito, Elam e Babilônia; o Império Neobabilônico conviveu com medos, lídios, egípcios e persas.

As faixas abaixo são aproximações. “Existência” pode significar dinastia, fase imperial ou período de hegemonia, não ocupação máxima contínua. A tabela deve ser lida horizontalmente para perceber simultaneidades e verticalmente para acompanhar transformações.

PeríodoMesopotâmiaEgito/NúbiaAnatólia/SíriaLevante e vizinhos
c. 2350-2200Império de AkkadAntigo Reino tardio/1º Intermediáriocidades e redes regionaisEbla e cidades sírias
c. 2112-2004Ur IIIMédio Reino em formaçãoreinos anatólioscidades e rotas amoritas
c. 1900-1600Isin, Larsa, Assur, BabilôniaMédio Reino/2º IntermediárioKanesh; antigo HattiMari, Yamhad, Cadesh
c. 1600-1400Babilônia cassita; MitaniReino Novo em expansãoHatti em recomposiçãovassalos egípcios e mitanianos
c. 1400-1200Assíria média; cassitasEgito imperialImpério HititaUgarit e cidades disputadas
c. 1200-900Assíria e Babilônia retraídasfim do Reino Novo; fragmentaçãoEstados siro-hititasfenícios, arameus, filisteus, Israel
c. 900-745Assíria em expansãolíbios e KushUrartu; reinos síriosIsrael, Judá, Damasco, fenícios
c. 745-609Império NeoassírioKush e Egito saíta; invasões assíriasUrartu e províncias assíriasreinos anexados ou vassalos
c. 626-539Império NeobabilônicoEgito saítamedos e lídiosdomínio babilônico; expansão persa

14.2 Coexistência no período de Akkad

Akkad reuniu grande parte da Mesopotâmia, mas não dominou todo o espaço conectado. Elam possuía dinâmicas próprias; cidades sírias negociavam ou resistiam; redes do Golfo continuavam. O título universal era uma reivindicação de ordem, não descrição cartográfica literal.

A ausência de outro império territorial equivalente imediatamente ao lado não significa vazio. Confederações, cidades e populações móveis limitavam capacidade. Império sempre coexiste com formas políticas que seus textos podem chamar de rebeldes, bárbaros ou servos.

14.3 O clube dos grandes reis

No século XIV a.C., Egito, Hatti, Mitani, Babilônia cassita e Assíria disputaram status. O sistema não era equilíbrio estático: Mitani caiu; a Assíria subiu; Hatti e Egito fizeram paz. Relações diplomáticas transformavam a hierarquia sem exigir conquista total.

As cidades levantinas ocupavam posição dupla. Eram subordinadas a grandes potências e agentes com estratégias próprias. Uma história vista apenas das capitais perde a política que decidia qual império realmente tinha influência numa rota.

14.4 O triângulo Assíria-Babilônia-Elam

Nos séculos VIII e VII a.C., Elam apoiou diferentes forças babilônicas contra a Assíria. A Assíria interveio repetidamente no sul; reis e casas caldeias negociaram alianças; conflitos internos elamitas alteraram a equação. Nenhum dos três polos pode ser estudado isoladamente.

Assurbanípal derrotou Elam e representou a devastação de Susa, mas o esgotamento das guerras afetou todo o sistema. A destruição do rival não garantiu estabilidade babilônica nem impediu a queda posterior da Assíria.

14.5 Egito como aliado imaginado e poder real

Reinos levantinos frequentemente buscaram apoio egípcio contra Assíria ou Babilônia. O Egito possuía prestígio, recursos e interesse na região, mas sua capacidade de projetar força variou. Promessas ou expectativas de auxílio podiam estimular rebeliões que o apoio efetivo não sustentava.

Isso demonstra a importância da percepção. Uma potência não precisa controlar uma região para influenciar decisões; basta ser considerada alternativa possível. Hegemonia inclui administrar as expectativas sobre rivais.

14.6 Medos, lídios e persas

Os medos participaram da derrota assíria, mas sua organização imperial é menos documentada e provavelmente diferente da imagem de um Estado centralizado herdada de autores gregos posteriores. A Lídia controlou grande parte da Anatólia ocidental. O Egito saíta manteve autonomia. Ciro II derrotou medos e lídios antes de tomar Babilônia.

Assim, a queda de 539 não foi encontro súbito entre Babilônia e um invasor desconhecido. Foi resultado de uma expansão persa já observável, dentro de um sistema de potências concorrentes.

14.7 Oito janelas de simultaneidade

  1. c. 2300 a.C.: Akkad expande-se enquanto Ebla e centros elamitas mantêm redes próprias.
  2. c. 1750 a.C.: Hammurabi domina o sul após um sistema que incluía Mari, Eshnunna, Larsa e Assíria.
  3. c. 1450 a.C.: Egito avança no Levante; Mitani controla o norte sírio; Hatti recupera-se; cassitas governam Babilônia.
  4. c. 1350 a.C.: Amarna conecta Egito, Hatti, Mitani, Assíria, Babilônia e Alashiya por cartas.
  5. c. 1274 a.C.: Egito e Hatti lutam em Cadesh enquanto Assíria cresce e Babilônia preserva seu status.
  6. c. 850 a.C.: Assíria expande-se, mas enfrenta coalizões sírias, Urartu, Babilônia e reinos levantinos.
  7. c. 670 a.C.: Assíria alcança o Egito, combate Elam e administra uma Babilônia instável.
  8. c. 550 a.C.: Babilônia, Egito, Lídia e o novo poder persa coexistem antes das conquistas de Ciro.

14.8 Coexistência não é equilíbrio pacífico

Potências simultâneas podem viver em guerra, paz armada, aliança ou hierarquia. O termo coexistir indica presença contemporânea, não reconhecimento mútuo como iguais. Um grande rei podia considerar outro irmão e tratar dezenas de governantes como servos.

Para estudar uma simultaneidade, combine quatro mapas mentais: territórios; rotas; alianças; e tempo de comunicação. Dois impérios distantes podiam trocar presentes sem fronteira comum; dois vizinhos podiam lutar por cidades intermediárias durante gerações.

Leituras-base do capítulo: Amanda H. Podany, Brotherhood of Kings; Mario Liverani, International Relations in the Ancient Near East; William L. Moran, The Amarna Letters; Gary Beckman, Hittite Diplomatic Texts; Raymond Cohen e Raymond Westbrook, orgs., Amarna Diplomacy.