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Biblioteca CENC

Biblioteca digital de história e pensamento

7. Mitani, Babilônia cassita e o Império Hitita

Entre os séculos XVI e XIII a.C., nenhum império controlou sozinho o antigo Oriente Próximo. Egito, Hatti, Mitani, Babilônia cassita e, depois, Assíria reconheceram alguns soberanos como “grandes reis”. A hierarquia era negociada por cartas, presentes, casamentos e guerra. Reinos como Alashiya, provavelmente Chipre, também participaram da diplomacia de alto nível. Os arquivos são assimétricos.…

7.1 Um sistema com várias grandes potências

Entre os séculos XVI e XIII a.C., nenhum império controlou sozinho o antigo Oriente Próximo. Egito, Hatti, Mitani, Babilônia cassita e, depois, Assíria reconheceram alguns soberanos como “grandes reis”. A hierarquia era negociada por cartas, presentes, casamentos e guerra. Reinos como Alashiya, provavelmente Chipre, também participaram da diplomacia de alto nível.

Os arquivos são assimétricos. Conhecemos Mitani sobretudo por fontes de vizinhos e por sítios dispersos; a Babilônia cassita é visível em cartas, kudurrus e documentos; Hatti deixou vasto arquivo em Hattusa. A diferença documental influencia a proporção da narrativa, não necessariamente o peso contemporâneo.

7.2 Mitani e o mundo hurrita

Mitani dominou partes do norte da Mesopotâmia e da Síria nos séculos XVI e XV a.C. Sua elite empregava elementos hurritas e indo-arianos em nomes e terminologia específica, mas o reino era culturalmente diverso. A capital Washukanni ainda não foi identificada com certeza, o que limita a reconstrução administrativa.

O reino competiu inicialmente com o Egito e depois tornou-se aliado por casamentos. Princesas mitanianas foram enviadas à corte egípcia. No século XIV, disputas dinásticas e ofensivas hititas enfraqueceram Mitani. A Assíria aproveitou a mudança para recuperar autonomia e expandir-se.

7.3 Os cassitas na Babilônia

Após a queda da Primeira Dinastia, uma dinastia cassita consolidou-se na Babilônia e governou por vários séculos, até 1155 a.C. Os cassitas não apagaram a cultura babilônica; adotaram sua língua erudita, cultos e formas de realeza. A longa duração sugere integração bem-sucedida, embora a documentação política seja menos abundante que em outros períodos.

Kudurrus registravam concessões reais e privilégios, frequentemente com símbolos divinos. Não eram simples marcos colocados necessariamente no campo; eram documentos monumentais que protegiam direitos e invocavam sanções. O rei distribuía recursos, ligava beneficiários à corte e apresentava a ordem jurídica como divinamente garantida.

7.4 Hatti: núcleo, periferia e ambiente

O reino hitita desenvolveu-se na Anatólia central, com capital em Hattusa. Montanhas, planaltos e rotas criavam desafios diferentes da planície mesopotâmica ou do vale do Nilo. A produção agrícola era sensível a variações e o acesso à Síria ampliava recursos e prestígio.

O território hitita era composto por um núcleo mais diretamente governado, regiões administradas por membros da família real e reinos vassalos ligados por tratados. A casa dinástica enfrentou sucessões violentas nos primeiros séculos. O Édito de Telipinu narra desordem anterior e busca normatizar a sucessão, ainda que sua eficácia não fosse absoluta.

7.5 Do Antigo Reino ao império

Hattusili I e Mursili I realizaram campanhas para a Síria. Mursili conquistou Alepo e atacou Babilônia, mas a longa expedição não resultou em ocupação mesopotâmica. Seu assassinato após o retorno abriu nova crise. O episódio mostra alcance militar extraordinário e limites de consolidação.

No século XIV, Suppiluliuma I transformou Hatti em grande potência. Explorou conflitos de Mitani, conquistou territórios sírios e instalou filhos em Alepo e Carquemis. Esses centros dinásticos prolongaram a autoridade hitita na Síria e sobreviveram, em formas sucessoras, ao colapso da capital.

7.6 Tratados de vassalagem

Tratados hititas registravam história da relação, obrigações, tributo, apoio militar, sucessão e juramentos diante de deuses. O texto não era um contrato entre iguais: definia uma hierarquia. Ainda assim, o vassalo recebia proteção e sua dinastia podia ser reconhecida.

A forma variava conforme o caso. Alguns acordos resultaram de derrota; outros consolidaram cooperação. Cópias eram depositadas e juramentos ritualizados. O tratado transformava uma relação política pessoal em memória escrita e religiosa.

7.7 Administração e a família real

Reis hititas dependiam de rainhas com título de Tawananna, príncipes, governadores, chefes militares e escribas. Mulheres da corte podiam conduzir correspondência, rituais e diplomacia. Puduhepa, esposa de Hattusili III, trocou cartas com a corte egípcia e participou da aliança com Ramsés II.

A família era instrumento de controle, mas também fonte de conflito. Parentes instalados em reinos estratégicos podiam garantir lealdade; disputas de legitimidade podiam dividir a elite. Como em outros impérios dinásticos, o mesmo mecanismo que integrava territórios criava competidores potenciais.

7.8 Religião e incorporação cultural

Textos hititas falam dos “mil deuses de Hatti”, expressão que comunica a incorporação de cultos anatólios, hurritas, sírios e mesopotâmicos. Conquistar uma cidade podia significar integrar suas divindades e especialistas ao sistema cultual. Festivais exigiam viagens reais e mobilização de recursos.

Essa pluralidade não deve ser confundida com tolerância moderna. Religião fazia parte da obrigação política, da legitimidade e dos juramentos. Epidemias ou derrotas podiam ser interpretadas como sinal de ofensa divina, levando a investigações rituais.

7.9 Hatti e Assíria: mudança no equilíbrio

Quando Mitani enfraqueceu, a Assíria de Ashur-uballit I reivindicou igualdade entre grandes reis. Babilônia e Hatti precisaram lidar com o novo participante. Reis assírios expandiram-se contra territórios antes mitanianos e chegaram ao Eufrates. Hatti apoiou zonas tampão e vassalos para limitar o avanço.

O sistema diplomático não era fixo. Status era produzido por capacidade militar, antiguidade dinástica e reconhecimento externo. Um rei podia chamar outro de irmão e, em outro contexto, negar-lhe precedência.

7.10 A crise final de Hatti

No início do século XII a.C., Hattusa foi abandonada e destruída em partes, e a estrutura imperial desapareceu. As causas incluem problemas internos, perda de rotas, conflitos, pressão sobre produção e instabilidade regional. Textos finais mencionam importação de grãos e ameaças, mas não oferecem uma narrativa única.

Carquemis e outros centros sírio-anatólios mantiveram tradições políticas e hieroglíficas luvitas. Portanto, o fim de Hatti foi simultaneamente colapso de uma corte central e sobrevivência de componentes regionais. A expressão “hititas tardios” ou “neo-hititas” descreve Estados sucessores, não a continuidade intacta do império.

Leituras-base do capítulo: Trevor Bryce, The Kingdom of the Hittites; Billie Jean Collins, The Hittites and Their World; Gary Beckman, Hittite Diplomatic Texts; Amanda H. Podany, Brotherhood of Kings; Gernot Wilhelm, The Hurrians.