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Biblioteca CENC

Biblioteca digital de história e pensamento

3. Cambises, a conquista do Egito e a crise de 522 a.C.

Cambises II sucedeu Ciro em 530 a.C. A transmissão dinástica preservou o núcleo do império, mas a sucessão nunca era mero procedimento automático. Príncipes, famílias aristocráticas, comandantes e centros regionais influíam na estabilidade. Documentos babilônicos ajudam a confirmar a presença e os títulos do novo rei, enquanto narrativas gregas oferecem episódios que precisam de crítica…

3.1 Sucessão e preparação

Cambises II sucedeu Ciro em 530 a.C. A transmissão dinástica preservou o núcleo do império, mas a sucessão nunca era mero procedimento automático. Príncipes, famílias aristocráticas, comandantes e centros regionais influíam na estabilidade. Documentos babilônicos ajudam a confirmar a presença e os títulos do novo rei, enquanto narrativas gregas oferecem episódios que precisam de crítica cuidadosa.

O grande projeto de Cambises foi o Egito. A conquista exigia atravessar o Sinai, assegurar água e suprimentos, coordenar frota e forças terrestres e explorar tensões internas do reino saíta. Fenícios, cipriotas e gregos podiam fornecer navios e experiência marítima. Em 525 a.C., a derrota de Psamético III em Pelúsio e a tomada de Mênfis incorporaram o vale do Nilo.

3.2 Cambises como faraó

Fontes hostis apresentaram Cambises como governante enlouquecido e profanador de cultos. Evidências egípcias oferecem quadro mais variado. O rei adotou titulatura faraônica, participou da linguagem do governo local e reconheceu instituições, embora a conquista e a tributação tenham criado conflitos. A história do touro Ápis, por exemplo, foi usada para construir uma imagem de impiedade, mas documentação funerária exige interpretação mais cautelosa.

O Egito não era apenas um território prestigioso. Produzia cereal, receita, tropas, navios e acesso ao Mediterrâneo oriental, ao mar Vermelho e à Núbia. Controlá-lo também impedia a formação de uma potência rival capaz de apoiar revoltas no Levante e na Anatólia.

3.3 A morte do rei e o problema de Bardiya

Em 522 a.C., durante o retorno do Egito, Cambises morreu. O império enfrentou uma crise de legitimidade. Um governante chamado Bardiya, ou alguém apresentado por Dario como impostor chamado Gaumata, ocupou o trono. A inscrição de Behistun afirma que Cambises matara secretamente seu irmão Bardiya e que um mago usurpara sua identidade. Dario e seis aliados teriam eliminado o impostor e restaurado a ordem.

Essa versão legitimava o vencedor. Não possuímos um relato neutro que confirme todos os detalhes. Parte da pesquisa considera possível que Dario tenha derrubado o verdadeiro Bardiya e construído a narrativa do impostor. Outras interpretações aceitam componentes centrais da inscrição. O ponto seguro é que a sucessão foi contestada e que Dario precisou demonstrar vínculo dinástico, apoio aristocrático e favor divino.

3.4 Revoltas em série

A crise desencadeou ou revelou rebeliões na Babilônia, Média, Elam, Pérsia e outras regiões. Pretendentes assumiram nomes de antigos reis e mobilizaram identidades políticas que a conquista não havia eliminado. Dario apresentou suas campanhas como restauração da verdade contra a mentira. A palavra não era apenas moral: organizava uma teoria de rebelião na qual o rei legítimo, apoiado por Ahura Mazda, combatia usurpadores que enganavam povos.

Behistun combina texto e imagem numa localização monumental ligada a uma rota importante. Versões em várias línguas ampliavam seus públicos e registravam uma narrativa oficial. A inscrição também funciona como catálogo do trabalho militar necessário para conservar o império. A rápida sequência de vitórias dependia de comandantes, tropas regionais e redes que permaneceram leais.

3.5 Dario e a fabricação da legitimidade

Dario não era filho de um rei anterior. Sua genealogia o ligava a Aquêmenes e a um ramo da família persa. Casamentos com mulheres da casa de Ciro reforçaram a reivindicação. Monumentos, selos, inscrições e cerimônias repetiram a imagem de um rei escolhido pela divindade e apoiado por povos ordenados.

Legitimidade foi construída simultaneamente por violência seletiva, recompensa, genealogia, religião e administração. O novo rei não apenas derrotou rivais; transformou a derrota deles numa explicação duradoura sobre por que seu governo era correto.

Controvérsia central: A identidade de Bardiya/Gaumata continua debatida. O dado histórico não é que a versão de Dario seja automaticamente verdadeira ou falsa, mas que ela se tornou a narrativa oficial de fundação de seu reinado.

Leituras-base do capítulo: Briant, From Cyrus to Alexander; Waters, Ancient Persia; Kuhrt, The Persian Empire.