6.1 Uma monarquia de múltiplas cortes
Depois de Constantino, governantes compartilharam ou disputaram o império. Divisões entre Oriente e Ocidente eram administrativas e dinásticas, não a criação imediata de duas civilizações. Leis podiam circular, consulados eram reconhecidos e a ideia de um único império persistia. Contudo, cada corte controlava nomeações, exércitos e receitas, produzindo interesses próprios.
A corte era uma instituição móvel de decisão: imperador, consistório, oficiais palatinos, guardas, eunucos, notários, juristas e redes de patronato. A cerimônia de acesso regulava proximidade. Títulos como prefeito do pretório, mestre dos ofícios e conde das sagradas liberalidades indicavam funções que mudaram no tempo. O governo não era uma máquina impessoal; cargos conectavam administração e status aristocrático.
6.2 Províncias, cidades e bispos
Prefeituras do pretório, dioceses e províncias organizavam a administração civil. Governadores julgavam, fiscalizavam cidades e transmitiam ordens. Conselhos municipais e seus membros, tradicionalmente responsáveis por arrecadação e obras, enfrentaram pressões fiscais e mudanças de prestígio. Não desapareceram simultaneamente; em algumas regiões, elites migraram para cargos imperiais ou episcopais.
Bispos tornaram-se mediadores, patronos e representantes urbanos. Podiam negociar impostos, organizar assistência, arbitrar disputas e liderar construções. Seu poder dependia de riqueza local, reputação e relações com corte e clero. A cristianização não eliminou o papel das cidades, mas alterou monumentos, calendários e instituições.
6.3 Fiscalidade e moeda
Reformas dos séculos III e IV fortaleceram a avaliação de terras, pessoas e obrigações. A combinação conhecida como capitatio-iugatio variou regionalmente; não era um imposto único aplicado de modo idêntico. O Estado demandava moeda, produtos e serviços. Cadastros e ciclos fiscais permitiam planejar despesas militares.
O solidus de ouro, estabilizado sob Constantino, tornou-se moeda de confiança por séculos. Sua estabilidade beneficiava pagamentos estatais e grandes transações, mas não prova prosperidade de todos. Moedas de bronze e prata serviam a outras escalas. A diferença entre arrecadação oriental e ocidental tornou-se politicamente decisiva: o Oriente preservou províncias mais densas e bases fiscais que ajudaram Constantinopla a sustentar exércitos.
6.4 Camponeses, colonato e escravidão
A maior parte da população vivia da agricultura. Leis ligaram certas categorias de colonos à terra e buscaram impedir fuga de contribuintes e trabalhadores. A expressão "colonato" cobre situações diferentes: arrendatários, dependentes, trabalhadores livres e obrigações hereditárias. Não houve uma transformação uniforme e imediata de camponeses em servos medievais.
A escravidão continuou em casas, campos, minas, oficinas e administração. Alforria e integração eram possíveis, mas não anulavam coerção. Grandes propriedades coexistiam com pequenas unidades. Arqueologia de vilas, aldeias, prensas e cerâmica mostra expansão em algumas regiões orientais e contração em partes do Ocidente.
6.5 Exército, comandantes e grupos externos
O exército tardio era profissional, diversificado e caro. Oficiais de origem provincial, germânica, armênia, isáuria e outras podiam alcançar os comandos mais altos. Classificar generais como "bárbaros" pode esconder carreiras profundamente romanas. Estilicão, Aécio, Aspar e outros operaram dentro de alianças cortesãs e militares.
Instalar grupos dentro do império podia fornecer soldados e agricultores, mas exigia terras, pagamentos e mediação. O assentamento dos godos após 376 tornou-se crise porque autoridades romanas administraram mal a entrada, exploraram refugiados e depois enfrentaram rebelião. A derrota de Valente em Adrianópolis, em 378, foi grave, mas o império oriental recuperou capacidade militar e negociou acordo em 382.
6.6 A transformação do Ocidente
No século V, vândalos, suevos, alanos, visigodos, burgúndios e outros grupos estabeleceram reinos em antigas províncias ocidentais. Esses processos combinaram travessias armadas, tratados, apropriação de receita, alianças locais e guerras civis romanas. A perda da África para os vândalos reduziu uma base fiscal essencial do governo ocidental.
Em 476, Odoacro depôs Rômulo Augústulo. Outro imperador reconhecido, Júlio Nepos, viveu até 480. A data é convencional, não um interruptor civilizacional. Odoacro governou a Itália com instituições romanas e reconhecimento formal do imperador oriental. Ostrogodos, visigodos e francos empregaram oficiais, leis e títulos romanos, ao mesmo tempo que construíram novas identidades políticas.
Debate central: A transformação do Ocidente resultou de pressão externa, guerras civis, perda fiscal, decisões de elites e formação de novos exércitos. Historiadores divergem sobre o peso relativo de cada fator; nenhuma explicação única encerra o problema.
Leituras-base do capítulo: Jones, The Later Roman Empire; Wickham, Framing the Early Middle Ages; Halsall, Barbarian Migrations and the Roman West; Heather, The Fall of the Roman Empire; Salzman, The Falls of Rome.