13. Napoleão, restauração e revoluções europeias

O golpe de 18 Brumário em 1799 levou Napoleão Bonaparte ao poder como primeiro cônsul. Constituição, plebiscitos e administração combinaram legitimidade revolucionária e autoridade concentrada. O Código Civil de 1804 consolidou igualdade masculina perante a lei e propriedade, ao mesmo tempo em que reforçou autoridade patriarcal e restringiu direitos de mulheres. Prefeitos, escolas, banco e…

13.1 Do Diretório ao Consulado

O golpe de 18 Brumário em 1799 levou Napoleão Bonaparte ao poder como primeiro cônsul. Constituição, plebiscitos e administração combinaram legitimidade revolucionária e autoridade concentrada. O Código Civil de 1804 consolidou igualdade masculina perante a lei e propriedade, ao mesmo tempo em que reforçou autoridade patriarcal e restringiu direitos de mulheres.

Prefeitos, escolas, banco e acordos religiosos ampliaram capacidade estatal. Esses instrumentos não foram criação individual; aproveitaram debates e instituições revolucionárias. Censura e polícia limitaram oposição.

Napoleão tornou-se imperador em 1804, título que preservava linguagem de mérito e soberania popular enquanto fundava dinastia.

13.2 Guerra e império continental

Exércitos franceses derrotaram coalizões e reorganizaram territórios europeus. Estados aliados adotaram códigos, reformas fiscais e confisco de privilégios. Ocupação exigia contribuições, recrutamento e abastecimento, provocando colaboração e resistência.

O bloqueio continental buscou enfraquecer comércio britânico, mas contrabando e interesses locais limitaram aplicação. A guerra peninsular envolveu forças francesas, britânicas, portuguesas, espanholas e guerrilhas; abriu crise das monarquias ibéricas e conectou Europa às independências americanas.

Campanha contra a Rússia em 1812 enfrentou distância, abastecimento, clima, exército russo e resistência. Reduzi-la ao inverno oculta decisões logísticas e políticas.

13.3 Império, escravidão e colônias

Napoleão restaurou escravidão onde a França controlava colônias em 1802 e tentou recuperar Saint-Domingue. A derrota francesa confirmou independência haitiana. No Caribe, guerra naval, doenças e resistência limitaram projetos.

A venda da Louisiana aos Estados Unidos em 1803 foi influenciada pela perda de Saint-Domingue e por prioridades europeias. O negócio ampliou território reivindicado pelos Estados Unidos sem consentimento de povos indígenas que viviam nele.

O império napoleônico foi europeu e colonial. A linguagem de direitos coexistiu com racialização e restauração escravista.

13.4 Congresso de Viena

Depois da derrota de Napoleão, potências reuniram-se em Viena em 1814-1815. Áustria, Rússia, Prússia, Grã-Bretanha e França negociaram fronteiras e legitimidade. O sistema buscou impedir hegemonia única e administrar crises por congressos e alianças.

Restauração não voltou simplesmente a 1789. Códigos, propriedades e reformas permaneceram em muitas regiões. Monarquias adotaram constituições ou cartas em alguns lugares e repressão em outros. Nacionalismo e liberalismo circularam por sociedades secretas, universidades, imprensa e exércitos.

Viena também condenou o tráfico atlântico em princípio, mas interesses e aplicação foram desiguais.

13.5 Revoluções de 1820 e 1830

Movimentos constitucionais ocorreram na Espanha, Portugal, Nápoles e outros lugares em 1820; alianças monárquicas intervieram em certos casos. A independência grega seguiu trajetória própria e internacional. Em 1830, revolução na França substituiu Bourbon por monarquia de julho; Bélgica separou-se dos Países Baixos; levante polonês contra Rússia foi reprimido.

Liberalismo podia defender constituição e propriedade sem sufrágio amplo. Nacionalismo podia desafiar impérios e excluir minorias. Trabalhadores e artesãos criaram reivindicações sociais que elites liberais nem sempre aceitavam.

Os mesmos rótulos escondem coalizões diferentes.

13.6 1848: primavera e limite

Crise econômica, desemprego, censura e demandas políticas contribuíram para revoluções de 1848 em França, estados alemães, império Habsburgo e Itália. Repúblicas, parlamentos e direitos foram proclamados; camponeses obtiveram fim de obrigações em partes da Europa central. Conflitos nacionais e sociais dividiram coalizões.

A maioria dos movimentos foi derrotada ou limitada, mas mudanças legais e experiência política permaneceram. Na França, a Segunda República aboliu escravidão colonial e adotou sufrágio masculino amplo antes de nova concentração de poder.

FaseForma de autoridadeTransformaçãoContradição
ConsuladoConstituição e plebiscitoAdministração centralizadaCensura e concentração de poder
Império napoleônicoDinastia e vitória militarCódigos e reformas territoriaisOcupação, recrutamento e escravidão colonial
VienaEquilíbrio entre potênciasDiplomacia de congressosRestauração limitada e repressão
1820-1830Revolta constitucional e nacionalCartas, independências e novos regimesSufrágio restrito e intervenção externa
1848República, parlamento e mobilização socialDireitos e fim de obrigações em regiõesDivisão de coalizões e reação

Mito versus evidência: Mito: Napoleão espalhou liberdade ou destruiu a revolução por completo. Evidência: consolidou reformas legais e administrativas, restringiu participação, construiu império militar e restaurou escravidão colonial; o saldo depende do direito e do grupo observado.

Leituras-base do capítulo: Michael Broers, Europe Under Napoleon; Isser Woloch, Napoleon and His Collaborators; Philip Dwyer, Napoleon; Mark Jarrett, The Congress of Vienna and Its Legacy; Jonathan Sperber, The European Revolutions, 1848-1851; Eric Hobsbawm, The Age of Revolution.