5. Nacionalismos, unificações e cidadanias na Europa

Nacionalistas transformaram idioma, história, território e cultura em argumentos de soberania. Escolas, exércitos, mapas, museus, censos, feriados e imprensa ajudaram a tornar comunidades nacionais imagináveis. Isso não prova que populações aceitassem a mesma identidade nem que fronteiras nacionais fossem naturais. Estados podiam criar nações ao mesmo tempo que movimentos nacionais pressionavam Estados. Padronização linguístic

5.1 Nacionalismo como construção política

Nacionalistas transformaram idioma, história, território e cultura em argumentos de soberania. Escolas, exércitos, mapas, museus, censos, feriados e imprensa ajudaram a tornar comunidades nacionais imagináveis. Isso não prova que populações aceitassem a mesma identidade nem que fronteiras nacionais fossem naturais.

Estados podiam criar nações ao mesmo tempo que movimentos nacionais pressionavam Estados. Padronização linguística ampliou comunicação e participação, mas desvalorizou dialetos e minorias. Serviço militar e escola difundiram símbolos comuns enquanto reproduziam hierarquias de classe e gênero.

5.2 A unificação italiana

O Reino do Piemonte-Sardenha combinou diplomacia, guerra e reforma administrativa; movimentos republicanos e voluntários também foram decisivos. A unificação avançou em etapas entre 1859 e 1870, incorporando estados e territórios com experiências distintas. A monarquia piemontesa prevaleceu sobre projetos federais e republicanos.

Depois da unificação, construir administração, impostos, escola e exército exigiu negociação e coerção. Conflitos no sul, desigualdade regional e participação política restrita revelam que unidade jurídica não criou imediatamente comunidade homogênea. Migração interna e externa tornou-se parte dessa formação nacional.

5.3 Alemanha sob predominância prussiana

A Prússia utilizou união aduaneira, reforma militar, diplomacia e guerras para reorganizar o espaço germânico. O Império Alemão proclamado em 1871 era federação de monarquias sob forte peso prussiano, com sufrágio masculino para o Reichstag, chanceler responsável ao imperador e amplos poderes dos estados no Bundesrat.

Industrialização, urbanização e partidos de massa transformaram o império. Católicos, social-democratas, liberais e conservadores disputaram pertencimento. Políticas contra catolicismo e socialismo mostraram limites da integração; legislação social e nacionalismo imperial buscaram novas lealdades.

5.4 França: república, cidadania e império

A derrota de 1870-1871 encerrou o Segundo Império e abriu a Terceira República. Conflitos entre republicanos, monarquistas, Igreja, Exército e movimentos sociais marcaram décadas seguintes. Escola laica, serviço militar e símbolos republicanos contribuíram para nacionalização, mas cidadania permaneceu atravessada por classe, gênero, religião e colonialismo.

A França republicana expandiu império na África e na Ásia. Direitos proclamados na metrópole não foram aplicados igualmente a súditos coloniais. A contradição não era acidente periférico: império, prestígio internacional, economia e política doméstica estavam conectados.

5.5 Minorias, fronteiras e exclusões

Poloneses, irlandeses, bascos, catalães, tchecos, eslovacos, croatas, sérvios, romenos, ucranianos e outros grupos formularam projetos diversos. Alguns pediam autonomia cultural, outros federalismo ou independência. Identidade religiosa e regional podia coexistir com pertencimento imperial ou nacional.

Antissemitismo moderno combinou preconceitos antigos, nacionalismo racial, política de massa e teorias pseudocientíficas. Emancipação jurídica de judeus avançou em vários países, mas não eliminou discriminação. O caso Dreyfus na França expôs disputas entre direitos republicanos e nacionalismo excludente.

5.6 Cidadania de massa incompleta

Sufrágio masculino ampliou-se, partidos organizaram eleitores e jornais alcançaram públicos maiores. Mulheres permaneceram sem voto nacional na maior parte da Europa até depois de 1914, embora movimentos sufragistas, socialistas e reformistas ampliassem presença pública. Cidadania social, civil e política avançou em ritmos diferentes.

CasoInstrumento de unificaçãoInstituição resultanteContradição duradoura
ItáliaGuerra, diplomacia e mobilizaçãoMonarquia constitucional centralizadaDesigualdade regional e sufrágio restrito
AlemanhaPrússia, união aduaneira e guerraFederação imperialPredomínio prussiano e autoridade executiva
FrançaRepública, escola e serviço militarEstado republicano centralizadoImpério colonial e exclusões de cidadania
IrlandaPartido, associação e reforma agráriaAutonomia negociada, ainda não efetiva em 1914União britânica, religião e propriedade
Europa centralCultura, parlamento e autonomiaProjetos nacionais concorrentesPopulações misturadas e fronteiras disputadas

Mito versus evidência: Mito: cada nação europeia encontrou seu Estado natural. Evidência: escolas, exércitos, plebiscitos, guerras, negociações e exclusões construíram pertencimentos sobre territórios multilíngues e politicamente disputados.

Leituras-base do capítulo: Eric Hobsbawm, Nations and Nationalism since 1780; Benedict Anderson, Imagined Communities; Eugen Weber, Peasants into Frenchmen; James J. Sheehan, German History 1770-1866; Lucy Riall, The Italian Risorgimento.