9.1 Bandung como processo
A Conferência Afro-Asiática de 1955 reuniu 29 governos em Bandung, Indonésia. Seus participantes discordavam sobre comunismo, alianças, religião, China e segurança, mas encontraram linguagem comum contra colonialismo, racismo e subordinação. Os princípios de soberania, não intervenção, cooperação e solução pacífica tinham significados diferentes para cada governo.
Bandung não criou imediatamente organização permanente. Produziu repertório, contatos e legitimidade. Jornalistas, estudantes e movimentos observaram o encontro, ampliando seu alcance além das delegações.
9.2 Movimento dos Não Alinhados
Belgrado sediou em 1961 a primeira conferência de chefes de Estado ou governo do Movimento dos Não Alinhados. Iugoslávia, Índia, Egito, Indonésia e Gana foram atores centrais. O movimento defendia descolonização, desarmamento e margem de decisão, mas incluía monarquias, repúblicas, democracias e regimes de partido único.
Não alinhamento era prática variável. A Índia cooperou militarmente com a União Soviética; a Iugoslávia recebeu apoio ocidental sem aderir à OTAN; Egito alternou fornecedores e parceiros; Cuba aproximou-se de Moscou e sustentou que compromisso revolucionário era compatível com o movimento.
9.3 Tricontinental e solidariedade revolucionária
A Conferência Tricontinental de Havana em 1966 reuniu organizações da África, Ásia e América Latina. Sua linguagem enfatizou luta anticolonial e anti-imperialista. Movimentos partilhavam treinamento, comunicação e símbolos, mas estratégias variavam entre guerrilha, partido, diplomacia e mobilização de massa.
Internacionalismo revolucionário competia com diplomacia estatal. Governos podiam apoiar movimentos no exterior e restringir oposição em casa. Solidariedade não eliminava interesses geopolíticos.
9.4 Grupo dos 77, UNCTAD e economia mundial
Na primeira Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento, em 1964, países em desenvolvimento formaram o Grupo dos 77. Demandavam melhores termos de comércio, acesso a mercados, financiamento, transporte e controle de recursos. O número do grupo cresceu, mas o nome permaneceu.
Essas iniciativas transformaram a Assembleia Geral em arena econômica. A Nova Ordem Econômica Internacional, proclamada em 1974, reuniu soberania sobre recursos, regulação de empresas, transferência de tecnologia e reforma financeira. Sua implementação foi limitada por divergências, crise econômica, oposição de países ricos e endividamento.
9.5 Terceiro Mundo como projeto, não lugar fixo
O termo designava espaço político que pretendia superar colonialismo e bipolaridade. Não correspondia a lista homogênea de países pobres. Havia exportadores de petróleo e importadores, Estados continentais e ilhas, governos conservadores e socialistas. A categoria perdeu coesão na crise dos anos 1980, mas suas demandas continuaram em debates sobre dívida, desenvolvimento e representação.
| Rede | Atores principais | Instrumento | Contradição |
|---|---|---|---|
| Bandung | Estados afro-asiáticos | Conferência e princípios | Alianças e regimes diferentes |
| Não Alinhados | Governos de vários continentes | Cúpula e coordenação na ONU | Autonomia versus aproximações seletivas |
| Tricontinental | Estados e movimentos | Solidariedade e comunicação | Diplomacia estatal versus revolução |
| Grupo dos 77 | Países em desenvolvimento | Negociação econômica | Exportadores, devedores e interesses diversos |
| NIEO | Maioria da Assembleia Geral | Resoluções e programa de ação | Norma ampla e poder material limitado |
Mito versus evidência: Mito: não alinhamento foi neutralidade oportunista. Evidência: foi um conjunto disputado de estratégias para ampliar autonomia, acelerar descolonização e reformar regras internacionais.
Leituras-base do capítulo: Vijay Prashad, The Darker Nations; Christopher J. Lee, Making a World after Empire; Robert B. Rakove, Kennedy, Johnson, and the Nonaligned World; Adom Getachew, Worldmaking after Empire.