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Biblioteca CENC

Biblioteca digital de história e pensamento

11. Goryeo e Kamakura: Coreia e Japão em transformação

Goryeo, fundado em 918, reunificou grande parte da península Coreana e governou até 1392. Entre 1000 e 1300, coexistiu com Song, Liao, Jin e Mongóis. A corte adotava título régio, administração letrada e budismo, mantendo linguagem própria de centralidade. Relações tributárias eram diplomacia hierárquica, não prova automática de submissão cotidiana. Guerras com khitan no início…

11.1 Goryeo em um sistema de vários impérios

Goryeo, fundado em 918, reunificou grande parte da península Coreana e governou até 1392. Entre 1000 e 1300, coexistiu com Song, Liao, Jin e Mongóis. A corte adotava título régio, administração letrada e budismo, mantendo linguagem própria de centralidade. Relações tributárias eram diplomacia hierárquica, não prova automática de submissão cotidiana.

Guerras com khitan no início do século XI foram seguidas por acomodação. Depois, Goryeo reconheceu Jin e continuou comércio com Song. A posição peninsular permitia negociar entre potências, embora crises internas limitassem escolhas.

11.2 Aristocracia, exames e budismo

Famílias de elite dominavam cargos por parentesco, terra e educação. Exames existiam, mas não romperam poder aristocrático. Templos recebiam doações e acumulavam recursos; monges serviam como estudiosos, ritualistas e defensores simbólicos do reino. A impressão do cânone budista, incluindo projetos conhecidos como Tripitaka Koreana, ligou religião, Estado e tecnologia.

Cerâmica celadon e metalurgia demonstram oficinas sofisticadas e intercâmbio. Objetos de elite não representam toda a sociedade. Agricultores, artesãos e pessoas de status subordinado sustentavam corte e instituições.

11.3 Governo militar em Goryeo

Em 1170, oficiais militares tomaram o poder e estabeleceram regimes dominados por famílias de comandantes. A monarquia permaneceu como centro de legitimidade, enquanto chefes militares controlavam nomeações e forças. Revoltas camponesas e de grupos subordinados revelam tensões que narrativas de corte minimizam.

A distinção entre “governo civil” e “militar” descreve mudança de coalizões, não substituição completa de instituições. Escribas, administradores e templos continuaram necessários.

11.4 Japão: da corte Heian ao bakufu

No Japão, a corte em Kyoto manteve imperador, aristocracia, rituais e propriedade. Guerreiros provinciais ampliaram poder por administração de terras, serviço e conflitos locais. A guerra Genpei, no final do século XII, levou à predominância de Minamoto no Yoritomo e ao estabelecimento do bakufu em Kamakura.

O novo governo não aboliu a corte. Japão passou a ter centros de autoridade sobrepostos: imperador e aristocracia em Kyoto; regentes e guerreiros em Kamakura; proprietários, administradores e instituições religiosas em províncias. “Feudalismo” pode ajudar na comparação de vínculos e terras, mas não deve impor modelo europeu.

11.5 Terra, guerreiros e comunidades

Propriedades conhecidas como shoen possuíam direitos e imunidades variados. Administradores e guerreiros protegiam e extraíam receita; camponeses negociavam obrigações e enfrentavam coerção. A identidade samurai foi construída gradualmente. Códigos posteriores e imagens modernas não devem ser projetados como ética uniforme do século XII.

Budismo diversificou-se com escolas e movimentos que atendiam cortes, guerreiros e comunidades. Mulheres aristocráticas produziram literatura e administraram relações familiares, mas mudanças patrimoniais tenderam a restringir certas posições ao longo do período.

11.6 Invasões mongóis e resposta regional

Khubilai exigiu submissão de Japão e lançou expedições em 1274 e 1281, com forças e navios mobilizados também na Coreia e China. Defesas japonesas, logística, combate costeiro e tempestades influenciaram o fracasso. A ideia de “vento divino” ganhou força na memória posterior; não substitui análise militar e ambiental.

Goryeo resistiu por décadas às invasões mongóis, transferiu a corte para a ilha de Ganghwa e finalmente entrou em relação dinástica com Yuan. A integração preservou monarquia, mas exigiu tributos, casamentos, tropas e recursos. Colaboração e resistência ocorreram dentro da mesma sociedade.

FormaçãoCentro simbólicoGoverno efetivoInstituiçõesRelação externa
Goryeo inicialGaegyeong e monarquiaAristocracias e oficiaisExames, templos, administraçãoLiao, Song e Jin
Goryeo militarRei preservadoFamílias de comandantesExército, escribas, templosJin e depois Mongóis
Japão Heian tardioImperador e KyotoCorte, casas guerreiras, proprietáriosShoen, templos, casas aristocráticasComércio regional
Japão KamakuraCorte em KyotoBakufu e regentes HojoVassalagem guerreira, terra, tribunaisInvasões Yuan

Leituras-base do capítulo: Michael J. Seth, A Concise History of Korea; Ki-baik Lee, A New History of Korea; Edward J. Shultz, Generals and Scholars; William Wayne Farris, Japan to 1600; Karl F. Friday, Samurai, Warfare and the State in Early Medieval Japan; Jeffrey P. Mass, The Development of Kamakura Rule.