2.1 Um mapa sem centro único
Por volta do ano 1000, Song governava grande parte da China, mas Liao controlava regiões ao norte e mantinha relação diplomática e militar de peso comparável. No Mediterrâneo, o califado abássida sobrevivia sob tutela búida, os Fatímidas governavam do Cairo e os Omíadas de Córdoba haviam reivindicado o califado. Bizâncio expandia-se sob Basílio II; o Sacro Império Romano articulava reis, bispos e aristocracias; e reinos cristãos do norte ibérico coexistiam com al-Andalus.
Na Índia, Cholas avançavam no sul, enquanto Chalukyas, Palas e outros poderes governavam regiões extensas. Angkor, Srivijaya, Pagan em formação, Đại Cồ Việt e estados insulares participavam de redes próprias. No Sahel, Wagadu/Gana era conhecido por autores árabes; no Chifre da África, formações cristãs sucediam Axum; cidades da costa suaíli conectavam interior e oceano. Nas Américas, centros toltecas, cidades maias, sociedades andinas e Cahokia seguiam trajetórias sem contato regular comprovado com Afro-Eurásia.
2.2 Crescimento, agricultura e cidades
Expansão agrícola sustentou muitos estados. Arroz de maturação rápida e obras hidráulicas favoreceram produção no sul da China; terraços, tanques e canais organizaram paisagens no Sul e Sudeste Asiático; cereais e pastoreio sustentaram corredores sahelianos; milho intensivo alimentou centros mississippianos. A inovação não foi uma invenção isolada seguida de difusão automática: plantas, técnicas e relações de propriedade foram adaptadas a ecologias e instituições locais.
Cidades como Kaifeng, Constantinopla, Cairo, Córdoba, Thanjavur e Angkor cumpriam funções diferentes. Algumas concentravam corte e burocracia; outras eram portos, centros de culto ou mercados. Urbanização deve ser medida por densidade, infraestrutura, especialização e dependência do campo, não apenas por muralhas ou monumentos.
2.3 Religiões, peregrinação e autoridade
Budismos, cristianismos, islamismos, hinduísmos, judaísmos e tradições locais organizavam comunidades que atravessavam fronteiras. Mosteiros, mesquitas, igrejas, templos e santuários recebiam propriedades, ensinavam, registravam contratos e distribuíam recursos. Governantes patrocinavam instituições religiosas para afirmar legitimidade, mas especialistas religiosos podiam contestar impostos, sucessões e conduta política.
Peregrinação aproximava regiões sem exigir um império único. Meca recebia viajantes de diferentes estados islâmicos; centros budistas conectavam Sul, Centro e Leste Asiático; Jerusalém atraía comunidades concorrentes; templos do Sul da Índia articulavam doação, ritual e economia. A circulação era sujeita a pedágios, insegurança, idioma e capacidade material.
2.4 Fronteiras como instituições
A fronteira Song-Liao não era uma linha vazia. Fortes, mercados supervisionados, embaixadas, pagamentos e migrações transformavam rivalidade em relação institucional. Entre Bizâncio, Armênia, Geórgia e poderes islâmicos, cidades e principados mudavam de aliança. No Saara, poços, oásis, guias e tributos tornavam possível a travessia; no oceano Índico, estreitos e monções definiam nós estratégicos.
Viver em fronteira podia oferecer oportunidades. Chefes, tradutores, mercadores e soldados negociavam títulos e proteção. Também podia aumentar coerção, recrutamento e deslocamento. A mesma instituição que conectava podia vigiar e excluir.
2.5 Comércio sem “economia mundial” plenamente integrada
Prata, ouro, cobre, cerâmica, tecidos, sal, cavalos, madeira, especiarias, livros e pessoas circulavam por cadeias de intermediários. Uma mercadoria raramente atravessava todo o percurso com o mesmo agente. Crédito, parceria, parentesco, confiança religiosa e proteção estatal reduziam riscos. Moedas coexistiam com pagamentos em espécie e unidades de conta.
As conexões eram intensas, mas desiguais. Uma crise no Egito podia afetar o mar Vermelho sem alterar diretamente Cahokia; mudanças na China influenciavam demanda por produtos marítimos, mas não controlavam cada porto. É mais seguro falar em redes parcialmente conectadas do que em sistema global homogêneo.
2.6 Coexistências em torno de 1000
| Região | Formações políticas | Base de recursos | Conexões | Questão em aberto |
|---|---|---|---|---|
| Leste Asiático | Song, Liao, Goryeo, Japão Heian, Đại Cồ Việt | Agricultura, impostos, oficinas, cavalos, portos | Mar Amarelo, estepes, rotas marítimas | Como medir soberanias sobrepostas |
| Mediterrâneo e mundo islâmico | Abássidas, Fatímidas, Bizâncio, Omíadas de Córdoba, Sacro Império | Terra, cidades, moeda, tributos, comércio | Mediterrâneo, mar Vermelho, Saara | Distância entre títulos universais e comando direto |
| Sul e Sudeste Asiático | Cholas, Chalukyas, Palas, Srivijaya, Angkor, Pagan inicial | Terra, templos, irrigação, portos | Baía de Bengala e estreitos | Alcance territorial de mandalas e expedições |
| África | Wagadu/Gana, reinos núbios, formações etíopes, Kanem, cidades suaílis | Ouro, sal, gado, agricultura, marfim, rotas | Saara, Nilo, mar Vermelho, Índico | Cronologias e escala de centralização |
| Américas | Tula e esfera tolteca, cidades maias, Chimú inicial, Cahokia | Milho, trabalho, tributo, paisagens rituais | Redes americanas regionais | Relação entre influência cultural e domínio político |
Leituras-base do capítulo: Valerie Hansen, The Year 1000; Janet L. Abu-Lughod, Before European Hegemony; Dieter Kuhn, The Age of Confucian Rule; Michael Cook, A History of the Muslim World; Kenneth R. Hall, A History of Early Southeast Asia; UNESCO, General History of Africa, volumes III e IV.