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Biblioteca CENC

Biblioteca digital de história e pensamento

8. Ásia interior antes e durante a expansão mongol

Ásia interior não era vazio entre civilizações sedentárias. Pastores, agricultores de oásis, comerciantes, monges e cidades articulavam Mongólia, Tarim, Transoxiana, Irã, Tibete e norte da China. Estados controlavam recursos complementares: cavalos, rebanhos, grãos, tecidos, metais e passagens. Mobilidade era tecnologia econômica e política. Confederações não eram menos organizadas por dependerem de seguidores e redistribuição

8.1 Corredores entre estepes, oásis e montanhas

Ásia interior não era vazio entre civilizações sedentárias. Pastores, agricultores de oásis, comerciantes, monges e cidades articulavam Mongólia, Tarim, Transoxiana, Irã, Tibete e norte da China. Estados controlavam recursos complementares: cavalos, rebanhos, grãos, tecidos, metais e passagens. Mobilidade era tecnologia econômica e política.

Confederações não eram menos organizadas por dependerem de seguidores e redistribuição. O desafio era manter alianças em grandes distâncias e converter vitória em receita. Cidades forneciam artesãos e escribas; estepes ofereciam montarias e espaço de mobilização.

8.2 Qarakhanidas e islamização regional

Qarakhanidas governaram partes de Transoxiana e Tarim, combinando tradições turcas e instituições islâmicas. Cidades como Kashgar e Balasagun ligavam rotas e produção agrícola. A conversão de elites ao Islã ocorreu antes do ano 1000, mas a islamização regional foi gradual e coexistiu com outras religiões.

Textos como o Kutadgu Bilig apresentam ética de governo em língua turca, dialogando com repertórios persas e islâmicos. A obra mostra tradução intelectual, não abandono simples de identidades anteriores.

8.3 Qara Khitai e Khwarazm

Após a queda Liao, grupos khitan migraram para oeste e formaram Qara Khitai no século XII. Governaram cidades e principados por tributos e intermediários, mantendo repertórios imperiais próprios em ambiente majoritariamente muçulmano. Sua existência desafia mapas que separam rigidamente “China” e “mundo islâmico”.

Khwarazmshahs expandiram-se entre Irã e Ásia Central, aproveitando declínio seljúcida e redes urbanas. No início do século XIII, governavam território vasto, mas relações tensas entre corte, elites regionais e fronteiras dificultavam resposta coordenada aos mongóis.

8.4 Tibete e poderes himalaicos

Depois da fragmentação do antigo império tibetano, mosteiros, linhagens e principados organizaram autoridade regional. O chamado “renascimento budista” dos séculos X a XII envolveu traduções, viagens de mestres e patronagem de elites. Nenhum centro controlava todo o planalto.

Relações posteriores com governantes mongóis foram construídas por patronagem religiosa e poder político. Fórmulas como “sacerdote e patrono” resumem relações que variaram conforme linhagem, governante e território. Mongóis não apenas adotaram budismo; selecionaram especialistas para legitimar e administrar.

8.5 Cidades, línguas e religiões

Sogdiano perdeu parte da antiga centralidade, enquanto persa e línguas turcas ampliaram usos; chinês, tangute, tibetano, uigur e mongol circulavam em diferentes ambientes. Escritas eram instrumentos diplomáticos. Uigures forneceram escribas e um modelo de escrita adaptado pelos mongóis.

Budismo, Islã, cristianismos orientais, maniqueísmo e cultos locais coexistiram. Tolerância não era direito universal: governantes patrocinavam comunidades conforme utilidade, convicção e alianças, podendo alterar privilégios.

8.6 A crise de 1218-1221

O conflito entre o império mongol e Khwarazm começou após ruptura de relações comerciais e diplomáticas em Otrar. Chinggis Khan conduziu campanhas que derrubaram o Estado khwarazmiano e atingiram cidades da Transoxiana e do Irã. Fontes muçulmanas registram trauma e números elevados; arqueologia e crítica textual ajudam a distinguir destruição, abandono, recuperação e retórica.

Mongóis incorporaram administradores, artesãos e tropas. A conquista foi violenta e também institucional: redistribuiu pessoas, impostos e rotas. As duas dimensões precisam permanecer juntas.

FormaçãoBase territorialGovernoConexõesTransformação
QarakhanidasOásis e TransoxianaDinastias turcas, cidades, IslãIrã, Tarim, estepesFragmentação e incorporação regional
Qara KhitaiSemirechye e cidades tributáriasHegemonia khitan por intermediáriosChina setentrional, Ásia Central, IslãDerrota por forças ligadas a Küchlüg e mongóis
KhwarazmDelta do Amu Darya, Irã e TransoxianaCorte, governadores, exército e cidadesCalifado, rotas persas, estepesColapso sob invasão mongol
Tibete regionalPlanalto e valesMosteiros, linhagens e principadosNepal, Índia, Tangute, MongóliaPatronagem com poderes mongóis

Leituras-base do capítulo: Michal Biran, The Empire of the Qara Khitai in Eurasian History; Peter B. Golden, Central Asia in World History; David Christian, A History of Russia, Central Asia and Mongolia; Christopher I. Beckwith, Empires of the Silk Road; Matthew T. Kapstein, The Tibetans.