15.1 Apartheid como Estado regional
O Partido Nacional chegou ao governo sul-africano em 1948 e sistematizou segregação por classificação racial, residência, educação, trabalho e representação. Apartheid não era apenas preconceito social: dependia de leis, polícia, empresas, administrações locais e territórios apresentados como pátrias separadas.
A economia combinava mineração, indústria e trabalho negro submetido a mobilidade e direitos desiguais. Sindicatos, Congresso Nacional Africano, Congresso Pan-Africanista, organizações comunitárias, igrejas e estudantes criaram formas sucessivas de resistência.
15.2 Sharpeville, Soweto e reorganização da resistência
Repressão ao protesto de Sharpeville em 1960 foi seguida por proibição de movimentos e passagem de algumas organizações à luta armada. Prisões, exílio e controle enfraqueceram atuação aberta, mas não a eliminaram. Em 1976, mobilização estudantil iniciada em Soweto ampliou contestação e repercussão internacional.
Na década de 1980, sindicatos, frentes cívicas e protestos tornaram áreas do país difíceis de governar. Estado de emergência intensificou coerção. Resistência interna, sanções, desinvestimento, mudanças regionais e custo econômico pressionaram o regime.
15.3 Rodésia, Zimbábue e governo da maioria
Na Rodésia do Sul, governo da minoria branca declarou independência unilateral em 1965 para impedir transição imediata. Sanções internacionais, guerra de libertação e negociação levaram ao acordo de Lancaster House e independência do Zimbábue em 1980.
A transição preservou temporariamente estruturas de propriedade e incluiu garantias negociadas. Independência política não resolveu automaticamente terra, desigualdade ou competição partidária.
15.4 Império português e guerras de libertação
Portugal manteve Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe como ultramar. Movimentos armados iniciaram guerras nos anos 1960. O custo militar e a crise do regime contribuíram para Revolução dos Cravos em 1974.
Transição rápida levou a independências em 1975. Em Angola, MPLA, FNLA e UNITA disputaram poder com participação de Cuba, União Soviética, Estados Unidos, China, Zaire e África do Sul. Moçambique enfrentou guerra entre FRELIMO e RENAMO em ambiente regional. Descolonização e Guerra Fria se fundiram sem serem idênticas.
15.5 Namíbia, ocupação e diplomacia
A África do Sul administrou o antigo Sudoeste Africano e recusou encerrar controle apesar de decisões internacionais. A SWAPO conduziu luta política e armada. A guerra em Angola, presença cubana, segurança sul-africana e negociações internacionais conectaram independência namibiana ao acordo regional de 1988. A Namíbia tornou-se independente em 1990.
15.6 Negociação sul-africana
Mudanças regionais, crise econômica, resistência interna e fim da Guerra Fria alteraram cálculos. O governo libertou Nelson Mandela e legalizou movimentos em 1990. Negociação buscou sufrágio universal, garantias constitucionais e transição sem guerra generalizada. O processo ultrapassa 1991, mas suas condições pertencem a este volume.
| Território | Estrutura de domínio | Movimento | Caminho de transformação |
|---|---|---|---|
| África do Sul | Apartheid e capitalismo racial | ANC, PAC, sindicatos e frentes cívicas | Mobilização, sanção e negociação |
| Rodésia/Zimbábue | Governo de minoria e colonização de povoamento | ZANU e ZAPU | Guerra e acordo constitucional |
| Angola | Colônia portuguesa e movimentos rivais | MPLA, FNLA e UNITA | Revolução portuguesa e guerra internacionalizada |
| Moçambique | Colônia portuguesa | FRELIMO e depois disputa com RENAMO | Independência e guerra regional |
| Namíbia | Ocupação sul-africana | SWAPO | Guerra, ONU e acordo regional |
Mito versus evidência: Mito: o fim do apoio das superpotências encerrou por si só apartheid e guerras regionais. Evidência: mudanças internacionais importaram porque movimentos, sindicatos, governos africanos e custos internos haviam transformado a relação de forças.
Leituras-base do capítulo: Saul Dubow, Apartheid, 1948-1994; Tom Lodge, Black Politics in South Africa since 1945; Piero Gleijeses, Visions of Freedom; Sue Onslow (org.), Cold War in Southern Africa.