3.1 Da abertura à hiperglobalização
Nos anos 1990 e 2000, tarifas diminuíram, contêineres e telecomunicações reduziram custos, empresas distribuíram produção entre países e fluxos financeiros cresceram. A Organização Mundial do Comércio, criada em 1995, ampliou regras e solução de controvérsias. A entrada da China em 2001 integrou uma força industrial gigantesca ao sistema.
Globalização não foi processo espontâneo. Tratados, portos, padrões, seguros, bancos, legislação e políticas industriais construíram os mercados. Estados abriram setores seletivamente e preservaram capacidades diferentes.
3.2 Cadeias globais de valor
Um produto passou a reunir projeto, componentes, montagem, software, marca e financiamento distribuídos por várias jurisdições. O valor não se dividia igualmente: propriedade intelectual, plataformas, logística e acesso ao consumidor concentravam renda. Países podiam aumentar exportações sem dominar tecnologia ou marcas.
3.3 Consenso de Washington e reformas
A expressão reuniu recomendações de disciplina fiscal, liberalização, privatização e segurança jurídica. Aplicações variaram. Em alguns casos, estabilização reduziu inflação e ampliou investimento; em outros, privatização opaca, abertura abrupta e proteção social insuficiente aprofundaram perdas. O resultado dependia de capacidade estatal e estrutura produtiva.
3.4 Trabalho, migração e desigualdade
Empresas deslocaram etapas produtivas, enquanto trabalhadores enfrentaram competição e adaptação. Economias asiáticas aproveitaram comércio com investimento em educação, infraestrutura e indústria. Outras regiões permaneceram dependentes de commodities ou serviços de baixa produtividade. Ganhos globais coexistiram com desigualdades internas e territoriais.
3.5 Reação e fragmentação
A crise de 2008, disputas distributivas, segurança de cadeias e rivalidade tecnológica estimularam políticas industriais e restrições comerciais. A década de 2020 não encerrou o comércio, mas tornou eficiência, resiliência e segurança objetivos concorrentes.
| Mecanismo | Promessa | Assimetria possível | Evidência necessária |
|---|---|---|---|
| Livre comércio | Escala e preços menores | Desindustrialização localizada | Emprego, produtividade e valor agregado |
| Investimento externo | Capital e tecnologia | Lucro remetido e enclave | Contrato, encadeamento e imposto |
| Propriedade intelectual | Incentivo à inovação | Renda concentrada | Patente, licença e capacidade local |
| Cadeia global | Especialização eficiente | Dependência de gargalo | Origem, fornecedor e alternativa |
MITO VERSUS EVIDÊNCIA Mito: globalização retirou o Estado da economia. Evidência: tratados, política monetária, infraestrutura, proteção de propriedade e gestão de crises dependeram intensamente de decisões estatais.
Leituras-base do capítulo
Dani Rodrik, The Globalization Paradox; Gary Gereffi, Global Value Chains and Development; Richard Baldwin, The Great Convergence; Quinn Slobodian, Globalists; Branko Milanovic, Global Inequality.