2.1 Dissolução soviética e sucessão
Em dezembro de 1991, a União Soviética deixou de existir e quinze repúblicas tornaram-se Estados independentes. A Federação Russa assumiu o assento soviético permanente no Conselho de Segurança da ONU e grande parte das obrigações internacionais. Fronteiras administrativas adquiriram significado interestatal, enquanto economias, ferrovias, energia, forças e populações permaneciam interligadas.
A mudança foi simultaneamente jurídica, econômica e social. Privatização acelerada, crise fiscal e queda produtiva redistribuíram propriedade e autoridade. Em várias repúblicas, a construção estatal conviveu com disputas de território, cidadania e língua.
2.2 Superioridade norte-americana
Os Estados Unidos concentravam alcance militar global, alianças, moeda internacional, mercados financeiros, universidades, empresas e indústria cultural. A Guerra do Golfo de 1991 demonstrou capacidade de organizar coalizão ampla sob autorização do Conselho de Segurança e de projetar força a grande distância.
Superioridade não significava liberdade ilimitada. Coalizões dependiam de bases, financiamento, legitimidade e parceiros regionais. O poder de definir agendas coexistia com dificuldades para produzir ordens políticas duradouras.
2.3 Democracia e mercado como horizonte
Transições políticas na Europa oriental, América Latina, África e partes da Ásia fortaleceram a expectativa de expansão democrática. Privatização, abertura comercial e disciplina fiscal foram apresentadas como caminho de modernização. Resultados variaram conforme instituições, sequenciamento, estrutura produtiva e distribuição de custos.
O termo “fim da história” tornou-se símbolo de um clima intelectual, não descrição literal de ausência de conflitos. Nacionalismos, religião, desigualdade e disputas territoriais permaneceram ativos.
2.4 Novos Estados e conflitos de sucessão
Iugoslávia se desintegrou em guerras, negociações e sucessões internacionais. Tchecoslováquia separou-se de forma negociada. Eritreia tornou-se independente da Etiópia em 1993; Timor-Leste alcançaria independência em 2002. O pós-1991 multiplicou soberanias sem padronizar os caminhos de formação estatal.
2.5 ONU ativa e limites institucionais
Com menor bloqueio entre superpotências, o Conselho de Segurança autorizou mais operações. Missões passaram a combinar observação, ajuda, eleições, administração transitória e proteção. Falhas em prevenir crises e desacordos sobre mandatos mostraram que ativismo institucional dependia de recursos e vontade dos membros.
| Dimensão | Vantagem dos EUA | Dependência | Limite revelado |
|---|---|---|---|
| Militar | Alcance e tecnologia | Base, aliado e logística | Vitória militar não cria governo estável |
| Financeira | Dólar e mercado profundo | Confiança e instituições | Crises propagam custos |
| Institucional | Peso em alianças e organismos | Negociação entre membros | Legitimidade pode ser contestada |
| Cultural | Mídia, universidade e consumo | Tradução e recepção local | Atração não produz obediência |
MITO VERSUS EVIDÊNCIA Mito: 1991 criou um governo mundial norte-americano. Evidência: a assimetria era excepcional, mas decisões continuaram dependendo de aliados, instituições, administrações locais e resultados econômicos.
Leituras-base do capítulo
Charles Krauthammer, The Unipolar Moment; G. John Ikenberry, After Victory; Mary Elise Sarotte, Not One Inch; Serhii Plokhy, The Last Empire; Tony Judt, Postwar.