17.1 2014 como inflexão
A anexação russa da Crimeia, guerras no leste ucraniano, consolidação chinesa sob Xi Jinping, crise no Oriente Médio e desaceleração da globalização marcaram mudança. Rivalidade entre grandes potências voltou ao centro, sem restaurar a bipolaridade da Guerra Fria.
17.2 Estados Unidos e China
Comércio, chips, mar, Taiwan, alianças e padrões tecnológicos formam competição multidimensional. Os dois países permanecem economicamente conectados, tornando separação total custosa. Parceiros tentam preservar acesso a ambos, embora pressões aumentem em setores estratégicos.
17.3 Guerra na Ucrânia e segurança europeia
A invasão russa de 2022 fortaleceu unidade ocidental em sanções e apoio, estimulou rearmamento e levou Finlândia e Suécia à OTAN, que passou a 32 membros em 2024. Ao mesmo tempo, diferenças sobre custos, objetivos e duração permaneceram. O conflito mostrou a combinação de território, drones, satélites, indústria, informação e logística.
17.4 Oriente Médio, Gaza, Irã e legitimidade internacional
Os ataques liderados pelo Hamas em 7 de outubro de 2023 e a guerra subsequente em Gaza ampliaram polarização, produziram uma grave crise humanitária e expuseram limites de instituições internacionais para proteger civis e produzir acordo. Em 2025, Israel e Irã passaram a trocar ataques diretos em escala inédita. Em 28 de fevereiro de 2026, Israel e Estados Unidos iniciaram uma nova campanha de ataques contra o Irã; Teerã respondeu contra Israel, instalações norte-americanas e rotas do Golfo. Cessar-fogos e negociações posteriores não produziram solução estável até 11 de agosto de 2026, e o Estreito de Hormuz tornou-se novamente um ponto central de coerção militar, energia e comércio. O conjunto mostra que alianças, direito internacional, infraestrutura e legitimidade podem mudar de significado durante uma crise.
17.5 Pandemia, guerra e cadeias
Pandemia, invasão, tensões comerciais e crises climáticas incentivaram estoque, produção doméstica e fornecedores alternativos. A lógica de custo mínimo passou a coexistir com segurança nacional. Empresas continuam globais, mas precisam mapear jurisdição e risco político.
17.6 Rearmamento e instituições
O SIPRI estimou gasto militar mundial de US$ 2,887 trilhões em 2025, décimo primeiro aumento anual consecutivo. Estados Unidos, China e Rússia somaram 51% do total. Em 5 de fevereiro de 2026, o New START expirou, deixando Estados Unidos e Rússia sem limites juridicamente vinculantes sobre seus arsenais nucleares estratégicos implantados. Os dois fatos apontam para rearmamento e erosão de mecanismos de controle, mas gasto e número de armas não medem sozinhos eficácia, intenção, doutrina ou estabilidade.
17.7 O mundo de 2026
Em 11 de agosto de 2026, a ONU tinha 193 membros, a União Europeia 27 e a OTAN 32. O BRICS ampliado reunia onze membros segundo a presidência brasileira de 2025, além de países parceiros. A UIT estimou que 6 bilhões de pessoas, 74% da população mundial, usavam internet em 2025, mas qualidade, custo, segurança e capacidade permaneciam muito desiguais.
A ordem não é simplesmente unipolar, bipolar ou multipolar. Os Estados Unidos preservam alianças, dólar e alcance; a China reúne indústria e infraestrutura; Rússia demonstra capacidade de coerção; União Europeia projeta regras; potências médias e coalizões temáticas ampliam autonomia. Em cada domínio, a distribuição é diferente.
| Domínio | Centro principal | Competidores | Forma da ordem |
|---|---|---|---|
| Militar global | Estados Unidos | China, Rússia e potências regionais | Assimetria contestada |
| Indústria | China e redes asiáticas | EUA, UE, Índia e outros | Interdependência seletiva |
| Finanças | Dólar e mercados ocidentais | Euro, renminbi e arranjos locais | Hegemonia com diversificação |
| Regulação digital | EUA, China e UE | Estados e padrões abertos | Modelos concorrentes |
MITO VERSUS EVIDÊNCIA Mito: a unipolaridade terminou numa nova ordem já definida. Evidência: diferentes domínios têm centros distintos, e instituições, guerras e tecnologias continuam redistribuindo capacidade.
Leituras-base do capítulo
Hal Brands e Michael Beckley, Danger Zone; Henry Farrell e Abraham Newman, Underground Empire; Odd Arne Westad, The Cold War e ensaios posteriores; SIPRI Yearbook 2026; relatórios da ONU, OTAN, União Europeia, UIT e BRICS.