SOBRE ESTE VOLUME
Apresentação
Este nono volume acompanha dois séculos em que conexões intercontinentais se tornaram mais regulares, densas e coercivas. Navios cruzaram o Atlântico em circuitos permanentes; a prata americana alcançou mercados europeus e asiáticos; mercadores, soldados, missionários e intérpretes circularam por oceanos já ocupados por redes antigas. Ao mesmo tempo, dinastias otomanas, safávidas, mogóis, Ming e Qing governaram populações imensas, enquanto poderes africanos, americanos, europeus e do Sudeste Asiático perseguiram projetos próprios. O resultado não foi um mundo europeu, mas um mundo mais conectado e profundamente desigual.
A conquista das Américas alterou a escala das relações oceânicas. Ela não pode ser explicada por um punhado de conquistadores nem por uma suposta superioridade civilizacional. Alianças indígenas, rivalidades políticas, epidemias, conhecimento local, tradução, apropriação de instituições existentes e reforços vindos do outro lado do oceano foram decisivos. Depois das primeiras vitórias, a formação de governos coloniais exigiu décadas de negociação, coerção e adaptação. Comunidades indígenas continuaram a litigar, migrar, cultivar, comerciar, praticar crenças e reorganizar autoridades.
Na África, o crescimento do tráfico atlântico de pessoas escravizadas produziu efeitos devastadores e desiguais. Africanos não formavam um bloco passivo: reinos, cidades, linhagens, comerciantes e comunidades tomaram decisões sob condições que mudavam rapidamente. Reconhecer agência não significa transformar coerção em escolha livre nem distribuir responsabilidades de maneira indiferenciada. Significa reconstruir como interesses locais, violência política, demanda externa, diplomacia e resistência se combinaram. Pessoas escravizadas preservaram conhecimentos, criaram comunidades e contestaram o cativeiro, embora agissem sob restrições extremas.
Na Ásia, a presença marítima portuguesa e, mais tarde, de companhias neerlandesas e inglesas foi importante, porém limitada. Estados asiáticos controlavam grandes exércitos, sistemas fiscais, mercados e portos; comerciantes armênios, árabes, indianos, persas, chineses, japoneses, malaios e suaílis continuaram indispensáveis. Companhias europeias obtiveram privilégios e construíram enclaves, mas dependiam de licenças, alianças e produtores locais. Em 1700, não governavam a maior parte da Ásia.
Autoria, pesquisa e uso editorial
O texto, a estrutura explicativa, as sínteses e as comparações deste volume foram redigidos originalmente para esta coleção. Texto, organização e edição: Leonel Edmundo Junior. Pesquisa histórica baseada na bibliografia indicada. Apoio de pesquisa e redação: inteligência artificial. O material pode ser adaptado para estudo, aulas, blog, roteiro, vídeo ou podcast, preservando referências, créditos e licenças de imagens e distinguindo evidência, interpretação e hipótese.
Pergunta central
Como a integração intercontinental cresceu por meio do comércio, da guerra, da missão, do trabalho forçado e da negociação, sem produzir domínio europeu uniforme nem apagar a atuação de sociedades africanas, americanas e asiáticas?
Como usar este volume
Os capítulos 1 e 2 apresentam fontes, escalas e o panorama de c. 1500. Os capítulos 3 a 6 analisam expansões ibéricas, conquista e colonização nas Américas e a presença portuguesa no oceano Índico. Os capítulos 7 a 11 tratam grandes formações da África, Ásia e Eurásia. Os capítulos 12 a 15 examinam escravização atlântica, conflitos europeus, companhias comerciais e intercâmbios ecológicos. O capítulo 16 reúne a comparação em torno de 1700. Os apêndices permitem estudar cronologia, coexistência, conceitos, fontes e atividades.
Cada capítulo responde a cinco questões recorrentes: que evidências sustentam a reconstrução; como a autoridade se formou; de que receitas e trabalhos dependia; como grupos colaboraram, negociaram ou resistiram; e quais interpretações permanecem debatidas. A seção de leituras-base não substitui a bibliografia final: funciona como porta de entrada para aprofundamento.
Convenções
Datas são aproximadas quando as evidências não permitem precisão maior. O intervalo 1500-1700 é uma ferramenta de comparação, não um período vivido do mesmo modo em toda parte. Expressões como primeira modernidade, início da era moderna e early modern são úteis, mas sua aplicação global é discutida.
Império designa uma formação que reivindica autoridade sobre territórios, povos ou unidades políticas diferenciadas e distribui poder de maneira desigual. Vice-reino, reino, sultanato, xádom, dinastia, confederação, cidade-Estado e companhia privilegiada indicam formas distintas. O livro não organiza sociedades numa escala linear entre atraso e progresso.
Fronteiras são zonas móveis de fortificação, migração, comércio, missão, tributação e soberania graduada. Mapas modernos tornam linhas mais precisas do que eram. Os verbos descobrir e explorar são usados apenas quando se refere à perspectiva documentada de um agente; terras americanas, africanas e asiáticas já eram conhecidas por seus habitantes.
Níveis de segurança: seguro, quando séries independentes convergem; provável, quando a melhor interpretação admite alternativas; debatido, quando cronologia, escala ou causalidade permanecem abertas. Estimativas demográficas e números do tráfico atlântico variam conforme séries, lacunas e métodos.
Conquista, guerra, escravização e perseguição religiosa são tratadas como processos políticos, fiscais, logísticos e sociais. A violência é reconhecida sem descrição gráfica e sem transformar capacidade destrutiva em medida de superioridade cultural.
Princípio editorial: Conectar histórias não significa procurar uma causa única. Uma mercadoria podia unir continentes e, ao mesmo tempo, depender de decisões locais diferentes em minas, aldeias, portos, cortes e mercados.
Mapa dos 14 volumes da coleção
A coleção principal percorre mais de quatro milênios de história imperial. Os recortes abaixo são pontos de observação comparativa: processos atravessam as fronteiras entre volumes e, quando necessário, os livros se sobrepõem deliberadamente.
| Volume | Recorte | Função no percurso da coleção |
|---|---|---|
| 1 | Fundamentos | Como surgem, funcionam e se transformam: método comparativo, poder, administração, economia, legitimidade, resistência e transformação. |
| 2 | c. 2350-539 a.C. | Primeiros impérios da Antiguidade: Mesopotâmia, Egito, Anatólia e Levante. |
| 3 | c. 559-30 a.C. | Da Pérsia aos reinos helenísticos: Aquemênidas, Alexandre, sucessores e conexões mediterrânicas e asiáticas. |
| 4 | c. 30 a.C.-300 d.C. | Roma, Pártia, Han e Cuchana: impérios conectados entre Mediterrâneo, Irã, Índia e China. |
| 5 | c. 224-650 | Roma tardia, Sassânidas, Guptas e confederações das estepes: transformação da ordem antiga. |
| 6 | c. 600-1000 | Califados, Bizâncio, Tang e novas formações imperiais: universalidades, fragmentação e redes. |
| 7 | c. 1000-1300 | Song, sultanatos, cruzadas e expansão mongol: muitos centros e conexões afro-eurasiáticas, com comparação americana. |
| 8 | c. 1300-1500 | Da fragmentação mongol às novas potências: epidemias, redes globais e recomposição política. |
| 9 | c. 1500-1700 | Conexões oceânicas e impérios da primeira modernidade: conquista, comércio, trabalho forçado e resistência. |
| 10 | c. 1700-1850 | Impérios, revoluções, industrialização e novas colonizações: reformas, emancipações e transformação do trabalho. |
| 11 | c. 1850-1914 | Industrialização, nacionalismos e imperialismo de alta intensidade: conquistas, migrações e resistências. |
| 12 | c. 1914-1945 | Guerras mundiais, revoluções e crise dos impérios: fascismos, colonialismos e autodeterminação. |
| 13 | c. 1945-1991 | Descolonização, Guerra Fria e novos imperialismos: superpotências, revoluções e soberanias incompletas. |
| 14 | c. 1991-2026 | Globalização, ordem unipolar e impérios em rede: intervenções, finanças, tecnologia e novas rivalidades. |
Nota de periodização: os limites entre volumes não são “paredes” cronológicas. Sobreposições preservam continuidade quando uma transformação pertence simultaneamente ao encerramento de uma ordem e à formação de outra.
CONTEÚDO